A cabine de desinfecção para pessoas pode ser um tédio contra o coronavírus – 09/06/2020

A cabine de desinfecção para pessoas pode ser um tédio contra o coronavírus - 09/06/2020

A evolução do novo coronavírus nos forçou a adotar diferentes estratégias de proteção diária. Um dos utilizados pelos estabelecimentos comerciais e pelos governos brasileiros é o estande de desinfecção para pessoas em locais públicos, uma estrutura que pulveriza uma substância desinfetante em cada um que passa por dentro.

Roupas, acessórios, couro. A promessa é que tudo será desinfetado adequadamente e livre do novo coronavírus após alguns segundos de ação. Interessante, não é? O problema é que nem tudo é o que parece.

Embora pareça uma estratégia promissora, os especialistas alertam: ainda não há evidências científicas de que a desinfecção na cabine, túnel, câmara ou cápsula (ou qualquer estrutura semelhante) seja eficaz contra o coronavírus. Nem mesmo se os produtos utilizados são seguros: existem modelos que utilizam diferentes produtos químicos.

É isso que se destaca Conselho Federal de Química, uma Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) e os Conselho Federal de Medicina, que publicaram documentos diferentes que reforçam a posição contra o uso dessas estruturas de desinfecção.

“Já recebemos várias consultas de empresas sobre substâncias a serem usadas nesta forma de aplicação, mas não havia evidências de eficácia contra microorganismos, embora semelhantes às da covid-19, ou que não há risco para a saúde das pessoas expostas” A Anvisa explicou para Inclinação.

“Uma das soluções mágicas recomendadas para algumas estruturas é a aplicação de uma solução de hipoclorito [de sódio, também conhecido como água sanitária]. Além da falta de evidências de eficácia no curto espaço de tempo, como mencionado acima, existe o risco de irritação da pele e dos olhos, envenenamento por inalação e também danos aos tecidos da roupa. [podem manchar]”adicionou a agência.

Outros produtos químicos comuns usados ​​em estruturas de desinfecção foram dióxido de cloro, peróxido de hidrogênio, amônio quaternário, ozônio, iodo, triclosan e clorexidina.

Exemplo de um túnel de desinfecção instalado em uma estação de trem em Nairobi, Quênia

Imagem: NJERI MWANGI / REUTERS

Qual é o posicionamento dos órgãos?

  • Em geral, os produtos químicos utilizados funcionam bem no combate ao novo coronavírus, mas seu efeito é comprovado em superfícies e objetos (com exceção do triclosan e clorexidina, aprovados pela Anvisa para a higiene das mãos). Nada prova seu uso em humanos.

Desinfetante não deve ser usado para descontaminar pessoas, pois esses produtos não são considerados anti-sépticos tópicos. Desinfetantes são produtos químicos tecnicamente classificados como desinfetantes e, como tal, devem ser aplicados exclusivamente em superfícies inanimadas.
Conselho Federal de Química

  • Existe o medo de que o uso de estruturas de desinfecção possa dar às pessoas a falsa garantia de que não precisam mais se preocupar em lavar as mãos com água e sabão ou com álcool gel, métodos mais eficazes de prevenção.
  • A dispersão das substâncias, mesmo que adequadamente diluída para uso em objetos e superfícies, pode causar danos à saúde humana.

A nebulização ou pulverização de produtos classificados como desinfetantes no corpo humano tem o potencial de causar lesões alérgicas, respiratórias, oculares e cutâneas.
Conselho Federal de Medicina

  • Também não há evidências de quanto tempo uma pessoa deve ser exposta ao desinfetante. Alguns levam entre 20 e 30 segundos para concluir o processo. Dependendo do produto químico adotado, o tempo da cabine é insuficiente para a desinfecção.
Exemplo de uma loja de desinfecção localizada em uma avenida principal na província das Filipinas - Sergio Pontillas / Getty Images

Exemplo de uma loja de desinfecção localizada em uma avenida principal na província das Filipinas

Imagem: Sergio Pontillas / Getty Images

Como usar produtos químicos

A Anvisa diz que o uso de substâncias que desinfetam superfícies, objetos e mãos deve seguir regras de diluição pré-determinadas para eliminar riscos.

A partir dessa lista, o professor Reinaldo Camino Bazito, professor do Instituto de Química da USP (Universidade de São Paulo), explica que os estudos consideraram o cloro e o peróxido de hidrogênio as melhores opções para combater o novo coronavírus. O amônio quaternário (encontrado em desinfetantes líquidos) aparece no ranking de eficiência.

Doutora em bioquímica Graciele Almeida De Oliveira, professora da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), detalha que produtos que utilizam substâncias químicas como essas devem levar em consideração a concentração de soluções, a forma como são combinadas e a suscetibilidade das pessoas alergias.

“Muitas dessas substâncias são corrosivas. Elas podem não apenas danificar as superfícies metálicas, mas também a pele, causando irritação”, disse Oliveira, que deu o exemplo do hipoclorito de sódio.

“Na quantidade correta [concentração], é eficaz como desinfetante de superfície porque pode reagir com biomoléculas [estruturas químicas] que estão presentes em microorganismos e até proteínas que estão em vírus. Mas como o hipoclorito de sódio não é um torpedo capaz de atingir um único alvo, ele também acaba reagindo com nossas biomoléculas, degradando-as e causando danos / irritação à pele “.

Para ambos os especialistas, o uso de estruturas de desinfecção para pessoas não é eficiente diante de tudo isso. Seria muito melhor se objetos, como carrinhos de compras, por exemplo, fossem desinfetados nessas barracas, acredita Bazito.

“Em superfícies porosas, como tecidos para roupas, o vírus fica ativo por menos tempo e tem mais dificuldade de contaminação. É melhor desinfetar o corrimão da escada rolante, a barra que as pessoas seguram, os bancos dos transportes públicos. Você não precisa expor as pessoas a agentes químicos “, argumentou.

O professor até citou um exemplo pessoal durante a entrevista. Ele e sua esposa desinfetaram as compras do mercado com cloro diluído sem luvas de proteção. Nada aconteceu com ele. Mas a esposa começou a ter problemas com a biometria do edifício em que vive, uma desculpa para a sensibilidade ao produto químico.

Devido à dinâmica da contaminação por vírus (quedas e superfícies contaminadas), a Anvisa continua com sua orientação: a melhor forma de combate ainda é a medida da higiene pessoal.

“O vírus não se multiplica fora do corpo humano. Se cair na superfície, não se multiplicará. Enquanto houver higiene adequada, o vírus que está na roupa dessas pessoas é controlável. Quando você chega em casa, coloca a roupa. “disse o professor Bazito.

Para o professor Oliveira, mesmo que houvesse um estande que se mostrasse eficaz e sem danos à saúde, o risco de contaminação em locais como transporte público ainda seria grande.

“Ainda assim, uma pessoa pode se contaminar ou contaminar outra pessoa dentro do metrô, lembrando que o vírus pode ser transportado por gotículas. [tosse] ou até mesmo estar presente no transporte. Pessoas que colocam as mãos na boca e depois contaminam a superfície “, acrescentou o professor Oliveira.

Conclusão: não vale a pena

Os Conselhos Federais de Química e Medicina recomendam que a população não seja exposta a cabines de desinfecção (e soluções similares) e sugere que empresas e autoridades públicas adiem investimentos na compra de tais equipamentos por enquanto.

Se o uso de produtos aprovados para uma finalidade específica (como desinfetar superfícies) for caracterizado por práticas diferentes das de sua origem, o ato poderá ser caracterizado como infração sanitária (Lei nº 6.437 / 1977). Isso pode resultar em multa, prisão e outras medidas, dependendo da gravidade, disse a Anvisa.

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