“A conferência com amigos é sobre amor”: como recurso, adquiriu novos usos – 06/10/2020

"A conferência com amigos é sobre amor": como recurso, adquiriu novos usos - 06/10/2020

Sentar na frente do computador e abrir a câmera era, para muitos, apenas um ritual profissional. Por meio do Zoom, do Google Hangouts ou do Skype, as pessoas usavam videoconferência para cumprir compromissos com clientes de outros estados e países. Mas com a chegada da pandemia, esse relacionamento adquiriu uma nova camada.

Nos últimos dois meses, festas e até videochamadas tornaram-se comuns. O ambiente de câmera anteriormente estéril com telas tornou-se a mesa de bar onde as pessoas riam, conversavam com pessoas de diferentes países novamente e choravam em um momento de luto. Inclinação Eu compilei algumas dessas histórias.

Celebração após a morte: “Estaríamos chorando em casa”

Rayane Jacobson, 32, gerente de projetos, em São Paulo (SP)

Imagem: Coleção Pessoal

Léo era de Goiânia, morava aqui em São Paulo e a maioria de sua família era de Minas Gerais. Ele foi enterrado em Minas Gerais. Se já era difícil para os amigos se despedirem, a pandemia se tornou ainda mais séria.

A morte é uma passagem, por isso precisamos terminar um ciclo nessa direção. E como Leo tinha amigos de todo o país, decidimos celebrar sua vida online. A sala de videoconferência tinha capacidade para 100 pessoas e estava lotada. Havia pessoas na fila para entrar.

Após a celebração, muitas pessoas nos enviaram mensagens nos agradecendo por ajudar a todos a terem esse fechamento. Foi algo que realmente marcou a todos. No final da celebração, uma pessoa disse que era uma nova era, uma época em que tudo havia mudado, quando pessoas distantes podiam fazer parte de um momento como esse.

Não é exatamente o mesmo que estar pessoalmente, mas para muitas pessoas é muito melhor do que não estar lá. E o fato de não ser exatamente um velório deixou as coisas mais leves. Naquela época, se eu estivesse em um funeral, estaria pensando nas pessoas que amei e que morreram. Mas enquanto eu estava em casa, pensei em Leo, era uma conexão de energias.

Não tenho dúvida de que isso está mudando e que as pessoas estão entendendo que a tecnologia pode resolver muitos dos nossos problemas. Se não fosse por ela, todo mundo choraria em casa, sem o apoio de saber que todo mundo está passando pela perda.

Aniversário de casamento: “A conferência com amigos é sobre amor”

Natália Furtado, 34 anos, publicidade, de São Paulo (SP) - Arquivo Pessoal

Natália Furtado, 34 anos, publicidade, de São Paulo (SP)

Imagem: Coleção Pessoal

Estamos juntos há dez anos, mas este ano estamos casados ​​há oito anos. Queríamos celebrar uma festa de aniversário de casamento em Ilhabela, onde nos casamos, mas não pudemos por causa da pandemia. Decidi fazer uma festa por videoconferência porque precisávamos fazer algo diferente para a nossa comunidade de amigos.

Liguei para três amigos meus, que trabalham como produtores de dinheiro, e lhes dei dinheiro. O que eu ia investir em uma festa presencial, decidi investir on-line. Eles começaram a organizá-lo uma semana antes, tudo remotamente.

Liguei para 60 pessoas e 55 delas estavam online no dia da festa. Eu insisti em consistência em minhas bênçãos, então tivemos a participação de Deise Tigrona, que também se apresentou na minha festa de casamento. E havia um DJ e, no final, a festa “Selvagem” começou a acontecer em nossa videoconferência. Começamos às 20h. Era para durar até 1 hora, mas devido à intensidade, saí às 4:58 e ainda tinha pessoas online. Saí da festa, eram até as 9 da manhã. Foi maravilhoso.

Foi incrível, porque eu coloquei o vestido, abri o computador, porque ele começou a tremer se eles aparecessem e todos começaram a entrar. Eu já estava acostumado a fazer videoconferência, mas a diferença é que essa conferência com meus amigos foi sobre amor. O engraçado é que todos os meus amigos sabiam que esse show seria incrível.

Bar virtual: “Conversamos pelo menos uma vez por semana com nossos amigos, é um ritual”

Amanda Bozza, 31, jornalista, e Gabriel Cavalcante, 32, coordenador de tecnologia, de Bogotá (Colômbia) - Arquivo pessoal

Amanda Bozza, 31, jornalista, e Gabriel Cavalcante, 32, coordenador de tecnologia, de Bogotá (Colômbia)

Imagem: Coleção Pessoal

Eu nunca fui a uma videoconferência, apesar de não morar na cidade em que nasci há seis anos. Isso acontecia com amigos de Curitiba, mas todos sempre tinham uma agenda cheia e era muito borogodó reunir todos. A videoconferência era um trabalho, e com ela veio o fardo de estar bem preparado, falando bem, etc.

Acho que se tornou uma ferramenta para ficar por perto e acho que tivemos a sorte de mudar de país em um momento em que todos estão mais dispostos e com tempo para fazer vídeos. Hoje, acaba sendo a ferramenta para matar a nostalgia e manter um pouco de sanidade em tempos de isolamento.

Nós gostamos de pessoas, gostamos de conversar e estar próximos (mesmo que fisicamente distantes). Nosso medo era que as pessoas não estivessem dispostas a conversar por videoconferência. Mas não, não tínhamos ideia de que conversaríamos pelo menos uma vez por semana com nossos amigos mais próximos, é uma espécie de ritual!

Durante o isolamento, aprendemos a dar às pessoas um pouco mais de valor e acho que isso nos ensinou a ter consciência. E a videoconferência, pelo menos para nós, continuará sendo a ferramenta para cuidar, ouvir e estar próximo daqueles que amamos.

Nos últimos tempos, com a situação no Brasil e a maneira como estamos ‘normalizando’ a morte, o que sinto, ainda mais quando vou desligar, é que essa pode ser a última vez e isso me quebra. Fico feliz em conversar com meus amigos e familiares, mas também temo por suas vidas. Embora aqui na Colômbia tenhamos mais de 1.300 mortos, no Brasil já existem mais de 37.000, é desesperador. Emocionalmente, ver e ouvir as pessoas é saber que elas ainda estão lá!

Se eu pudesse, faria todos os dias e com todos os meus amigos (a família que fazemos muito, faço quase todos os dias), porque essa foi a maneira de garantir que tudo está bem e dar aquele puxão quando você precisar.

Reconexão: “Parei de dar prioridade às pessoas próximas a mim e me aproximei de pessoas importantes”

Carise Fernandes, 35 anos, cozinheira, de Berlin (Alemanha) - Arquivo Pessoal

Carise Fernandes, 35 anos, cozinheira, de Berlim, Alemanha

Imagem: Coleção Pessoal

Eu não tinha um relacionamento profissional com videoconferência, havia muito poucas pessoas com quem eu fazia o Skype, mas era muito raro. Com exceção dos relacionamentos de longa distância e, no máximo, a cada duas semanas. Eu nunca fui uma ótima ligação pelo Skype. Eu costumava fazer e ainda fazer yoga com meu parceiro em Londres, mas não era nada como falar na frente da câmera.

No final, quando a pandemia chegou, primeiro o grupo de amigos aqui em Berlim decidiu fazer uma videoconferência por causa do aniversário de um amigo. Então percebi que também podia fazer isso com pessoas de outros países.

O que mudou muito é que a geografia não era mais um problema. Em uma vida mais normal, acabamos dando prioridade a encontrar pessoas geograficamente mais próximas de você. Quem pode ir a um bar, a um cinema? Quando a epidemia chegou, deixou de existir: permitiu-me conhecer alguém. Comecei a me aproximar de amigos que não mantinha contato por causa da distância. Ficamos tão distantes que todos se aproximaram.

Para mim, ter um Skype com um primo que mora no Brasil ou com um amigo que mora na rua é o mesmo. Não sei se isso continuará após o parto, porque a vida nos atropela, mas espero que algumas pessoas mantenham uma comunicação mais próxima, como meu primo.

Ainda assim, quando falo com pessoas próximas a mim, que poderíamos estar em um bar, isso me dá um pouco de amargura, tendo que fazê-lo apenas por vídeo. Mas com as pessoas que estão longe de mim, é muito bom poder mostrar um pouco da minha vida e do meu universo aqui.

Meu primo e eu estávamos cozinhando juntos à distância, eu a ensinei a fazer receitas através de vídeos. A conversa é muito mais fluida. Um interrompe o outro para rir. Eu nunca imaginei que me sentiria tão aberto. Se eu não tivesse esse tipo de encontro durante a corrida dos touros, seria muito mais difícil.

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About the Author: Adriana Costa Esteves

"Estudioso incurável da TV. Solucionador profissional de problemas. Desbravador de bacon. Não foi possível digitar com luvas de boxe."

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