A educação a distância pode ser tão eficaz quanto presencial; ver porquê – 04/02/2020

A educação a distância pode ser tão eficaz quanto presencial; ver porquê - 04/02/2020

A nova pandemia de coronavírus suspendeu aulas indefinidamente em escolas, universidades e outras instituições de ensino em todo o mundo. A alternativa encontrada por muitas dessas instituições foi oferecer aos alunos o conteúdo que lhes seria dado nas aulas por meio de canais digitais, usando tecnologias de ensino a distância. No Brasil, o próprio Ministério da Educação (MEC) publicou, em 18 de março de portaria que autoriza a mudança, por um período de 30 dias.

Especialistas em educação a distância dizem que a crise causada pela pandemia acabou sendo uma oportunidade de romper alguns preconceitos e mostram que a modalidade de educação a distância, conhecida por sua sigla EAD, quando usada adequadamente, pode ser tão eficaz no aprendizado alunos como ensino em sala de aula.

“É uma oportunidade para as pessoas verem a EAD como uma alternativa, para que professores, alunos e a comunidade escolar em geral estejam dispostos a entender e usar as ferramentas disponíveis”, diz Marcus Vinicius Maltempi, coordenador do Instituto de Educação e Ensino. Pesquisa em práticas pedagógicas na Unesp (Universidade Estadual Paulista).

Todos os especialistas ouvidos pelo Inclinação Ele fez a reserva de que, embora seja um momento favorável para a expansão das técnicas de ensino a distância, as aulas remotas que as instituições de ensino no Brasil oferecem hoje para substituir presencialmente, em geral, não devem ser vistas como ensino a distância . .

Rodrigo Capelato, diretor executivo da Semesp (Sindicato das Entidades de Manutenção de Instituições de Ensino Superior do Estado de São Paulo), diz que as instituições estão transpondo a sala de aula para um ambiente virtual. “[EAD] Não é só eu que vou à sala de aula e começo a ensinar na plataforma. O ritmo é diferente. “

Para Lana Paula Crivelaro, especialista em educação, inovação e tecnologia e diretora da ABED (Associação Brasileira de Educação a Distância), é hora de ouvir os especialistas e procurar modelos. “Vivemos hoje em um modelo muito tradicional de educação. Agora é a hora de ver o potencial da educação a distância”, acredita ele.

Controle sobre o espaço e o tempo.

Os cursos a distância permitem que o aluno tenha mais controle sobre o espaço e o tempo do estudo, o que pode ser uma vantagem para quem já tem uma rotina de trabalho ocupada, tarefas domésticas, criação de filhos, etc.

“A EAD me permite fazer um curso em que o especialista está em São Paulo, Harvard (EUA), Oxford (Reino Unido), algo que eu não poderia fazer regularmente. E eu posso me encaixar na minha agenda e a minha é de rotina, essa possibilidade de estudar a distância “, diz Maltempi, da Unesp.

Em tempos de pandemia, esse horário flexível pode dar aos pais que trabalham em casa a oportunidade de planejar o melhor momento para cuidar da educação dos filhos. Muito antes da pandemia levar as pessoas a ficarem confinadas em suas casas, a EAD já oferecia aos que moravam em áreas de difícil acesso a oportunidade de adquirir conhecimento.

Responsabilidade é um desafio.

Quando aplicado corretamente, o método desenvolve no aluno um senso de autonomia e responsabilidade por seu próprio conhecimento. “Uma das coisas mais importantes na educação é a emancipação, é a pessoa que tem autonomia. Ele nunca terá isso enquanto depender da inteligência e da explicação do professor”, diz Maltempi.

Apesar de responsabilizar o aluno pelo seu conhecimento, as ferramentas permitem (ou devem permitir) a interação entre alunos e professores, o que, segundo o especialista, é fundamental para o processo de aprendizagem, porque “um ambiente de interação oferece a possibilidade expandir e ter a opinião avaliada e criticada “.

Mas, é difícil envolver os alunos. Há uma forte competição por atenção, o que exige que o professor se prepare com várias ferramentas visuais e auditivas para ensinar os distraídos e aqueles que dependem do texto para aprender. Para Crivelaro, da ABED, a gamificação se torna um recurso importante para que os alunos se sintam motivados a ganhar pontos pelo aprendizado e seguir uma trilha de conhecimento.

Não é apenas gravar o professor ensinando

A pandemia pegou o setor educacional de surpresa e as instituições educacionais não sabiam como responder a essa crise. “As escolas não estavam preparadas e não foram planejadas. O que elas fizeram? Elas saíram fazendo o modelo frente a frente à distância”, diz Crivelaro:

Quando você recebe apenas um vídeo, a explicação é bastante reduzida. O aluno ouvirá e entenderá o que quiser, sem hesitar, não importa quanto tempo depois vá para um fórum de discussão. Este tipo de aprendizado não está envolvido. Vídeos longos de exercícios que não têm nada a ver

Essa educação a distância, realizada como “chicoteada” e “iluminada”, pode ser ainda pior para o desenvolvimento de uma educação a distância de qualidade no Brasil, defende Maltempi. “Nesse caso, não temos pessoas treinadas ou suporte tecnológico suficiente e estamos tentando nos adaptar, adaptar-se ao que temos”, diz ele.

Mas o que você pode fazer com o que tem agora?

Devido à pandemia, gigantes da tecnologia como Google e Microsoft forneceram acesso gratuito a suas ferramentas para permitir ambientes virtuais de aprendizado. Mas existem algumas ferramentas gratuitas no mercado que podem servir como “sala de aula”, e o MEC mantém uma plataforma de recursos digitais, o MEC Red.

Mas, para Crivelaro, o planejamento deve preceder a tecnologia, ou seja, encontrar uma metodologia, organizar o passo a passo e pensar em como essa autonomia de estudo chegará ao aluno.

O que não funciona, dizem os especialistas, é gravar uma hora de aula para ser vista na frente do computador. Capelato, da Semesp, aconselha “perfurar” a turma.

“Dou 20 minutos de exposição, faço atividade, dou mais 20 minutos de exposição, faço uma leitura, peço uma apresentação do trabalho em grupo. Existem ferramentas que permitem gerenciar o trabalho em grupo enquanto ensino, permitem que as pessoas apresentem seminários”, explica ele.

Outra dica é fazer uso da chamada “sala de aula invertida”. Nele, o aluno tem acesso ao material antes de interagir com o professor e os colegas de classe. Segundo Capelato, você pode enviar essas lições gravadas aos alunos com antecedência e marcar uma reunião virtual com todos. “Quando eu entrar na aula, esteja pessoalmente [quando acabar o isolamento] ou remota, eu uso o professor para responder perguntas, vamos fazer os exercícios juntos “, diz ele.

Para Maltempi, essa metodologia deixa espaço para uma interação de melhor qualidade. “A sala de aula invertida deixa o momento da interação para coisas de maior qualidade, com maior refinamento: esclarecer dúvidas, problematizar, colocar as pessoas em dúvida e não expor conteúdo”, afirma.

Nesse modelo de ensino à distância, é possível realizar estudos de caso, trabalhar nas chamadas metodologias ativas (quando até alunos fisicamente separados trabalham juntos, em pares ou grupos, na produção de seu próprio conhecimento), chamar professores externos para uma conversa de 20 minutos. , entre outras possibilidades.

Após a pandemia, esse modelo pode até resultar na implementação da educação híbrida, uma metodologia que combina ensino presencial e a distância.

“A sala de aula terá uma concepção diferente e um uso muito mais amplo dessas ferramentas, que já estão disponíveis e enriquecerão ainda mais a sala de aula”, diz Capelato, da Semesp.

Ele é atraído por professores, falta de excelência nos cursos.

Pode até parecer contraditório, mas ter mais aulas a distância envolve uma participação mais ativa do professor do outro lado do computador, afinal, é ele quem pensa e é dele que vem o conhecimento para programar a máquina.

“A EAD precisa de um professor criativo e organizado, com um método de ensino para quem está do outro lado de forma autônoma e assíncrona, porque nem tudo está programado para as 8 ou 9 da manhã. Se você não tem o professor, o ambiente [virtual de aprendizagem] ele não fará nada pelo aluno, ele não ensinará “, diz Crivelaro.

Esse modelo interativo e tecnológico de educação a distância não é remotamente semelhante ao método generalizado de ensino a distância no Brasil, segundo especialistas, que existe principalmente no ensino superior. Em geral, os cursos a distância oferecem aulas pré-gravadas e gravadas, disponíveis em uma plataforma e o aluno faz de acordo com o ritmo.

“É quase um curso que você faz sozinho”, diz Capelato.

Para ele, o grande problema desse modelo é que, se um aluno não possui uma boa base e disciplina, ele acaba não podendo terminar sua carreira.

Segundo o último censo do ensino superior, a avaliação dos cursos a distância é pior do que a dos cursos presenciais. Dados mais recentes do Inep mostram que 6,1% dos alunos que concluíram os cursos no site tinham um conceito máximo, esse percentual era de 2,4% em educação a distância. Além disso, a taxa de conclusão nos cursos a distância é pior do que nos cursos presenciais (35% no ensino à distância e 38,6% na sala de aula).

“As grandes universidades privadas estão pressionando para que vendam cursos, o que certamente pressiona o mercado para facilitar a abertura e a manutenção dos cursos. A regra de avaliação foi mais flexível e isso pode ser um problema”. Maltempi acredita.

Mas, Capelato lembra que, no Brasil, os cursos a distância são uma alternativa a um diploma de baixo custo. “Não estou dizendo se isso é bom ou ruim. É a proposta que nasceu de uma ação no Brasil. São pessoas que só podem pagar uma taxa mensal muito baixa e por isso não posso ter muitos professores à minha disposição”, diz ele.

Para ele, essa EAD com aulas preparadas e baixa interatividade, nas quais o aluno é quase autodidata, e a EAD que foi pensada nas instituições de ensino durante a pandemia são dois modelos completamente diferentes, com custos diferentes.

“É um novo modelo que não praticamos e que não é barato. É como se fosse uma sala de aula à distância”, resume.

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About the Author: Adriana Costa

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