A intensificação da fuga de cérebros no Brasil é um mau presságio

SÃO PAULO – Em um jantar recente em São Paulo, um amigo que é executivo de uma empresa de tecnologia mencionou que ele e a esposa planejam se mudar para Lisboa. “As escolas públicas em Portugal são ótimas, são totalmente seguras e posso fazer quase todo o meu trabalho remotamente”, disse. Acrescentou que esperava voar para São Paulo a cada um ou dois meses, sempre que fosse necessário um encontro presencial. Vários outros convidados disseram que também estão pensando em trazer suas famílias para Lisboa ou Miami depois de passar vários meses durante a pandemia trabalhando no exterior. De fato, a possibilidade de trabalhar remotamente gerou um debate sobre a saída do Brasil entre um número crescente de executivos e empresários brasileiros.

Esses casos representam apenas uma fração do crescente número de brasileiros que vão ao exterior em busca de oportunidades. A maioria dos que saem do país são menos privilegiados, embora a emigração esteja fora do alcance dos mais pobres. Em 2021, um incrível 17% dos brasileiros que viajaram para o exterior não voltou, um recorde. O número de brasileiros que residem legalmente em Portugal, por exemplo, atingiu recentemente um novo recorde de 252.000, um aumento colossal de 23% em relação ao ano passado. O número real de brasileiros em Portugal é provável meio milhãoincluindo os que lá vivem ilegalmente e os milhares de brasileiros que também têm passaporte europeu e, portanto, não se registram como brasileiros.

Além disso, o número de brasileiros que solicitaram a cidadania portuguesa também experimentou um aumento significante na última década, de 24.000 em 2010 para 58.000 em 2020. Além disso, o número de brasileiros que vivem em países como Itália, Irlanda e EUA aumentou consideravelmente nos últimos anos: 1,8 milhão de brasileiros agora vivem nos EUA 20% de aumento desde 2016. O número de brasileiros detido na fronteira dos EUA também está batendo novos recordes com quase 150 por dia.

Gestores e empresários consideram sair não apenas por razões econômicas; afinal, muitos preferem manter seus empregos de alto nível em São Paulo ou no Rio, que pagam muito mais do que oportunidades comparáveis ​​em lugares como Lisboa. Muitas vezes procuram oferecer aos filhos uma “educação normal” com melhor segurança e educação pública fora da bolha da elite. Isso revela profundas dúvidas sobre se o Brasil será capaz de superar seus desafios mais prementes, como a profunda desigualdade e a falta de segurança pública, nos próximos anos. Poucos dos brasileiros nascidos nas décadas de 1970 e 1980 que agora chegam aos altos escalões de suas organizações ou dirigem suas próprias empresas têm muita fé de que qualquer coisa remotamente parecida com o otimismo alimentado pelo boom das commodities dos últimos anos Lula estará de volta em breve. Muitas vezes esquece-se que, na época, a migração estava fluindo na direção oposta; O Brasil atraiu inúmeros jovens profissionais de países como Portugal e Espanha, e milhares de brasileiros voltaram do exterior.

Embora insignificante em termos de números totais, a crescente fuga de cérebros da elite – já altamente visível na comunidade científica, onde os acadêmicos enfrentam uma dramática escassez de financiamento para pesquisa, é profundamente preocupante. O Brasil passou por uma década de crescimento quase zero e precisa desesperadamente aumentar a produtividade do trabalhador per capita para evitar ficar para trás e permanecer sujeito às fortes oscilações nos preços das commodities que inevitavelmente produzem instabilidade política em cada recessão.

O Brasil já passou por crises econômicas que produziram emigração antes, mas o momento atual sugere uma mudança mais permanente. Por exemplo, o número de brasileiros cursando graduação universitária no exterior aumentou consideravelmente e agora permanece mais de 70.000. Dos que buscam diplomas universitários fora do Brasil, muitos podem começar suas carreiras profissionais no exterior e são menos propensos a retornar. A saída de profissionais altamente qualificados tende a produzir repercussões em toda a sociedade; médicos, cientistas e empresários tiram suas redes, ideias e capacidade de criar empregos e pagar impostos.

A emigração de elites é também um grande problema para o setor público e a sociedade civil, cuja capacidade de atrair profissionais qualificados é um elemento essencial para o funcionamento da democracia. Pior ainda, a emigração tende a encorajar ainda mais a emigração, já que os profissionais que se instalam no exterior geralmente identificam oportunidades de trabalho para seus ex-colegas em casa. A decisão de saída de pessoas altamente informadas e bem conectadas é um indicador preocupante e pode afetar as perspectivas de crescimento do país no longo prazo.

Em 2012, com os cafés do Rio e de São Paulo lotados de profissionais recém-chegados do exterior, poucos poderiam imaginar que apenas dez anos depois, um número recorde de brasileiros partiria. Talvez outra mudança inesperada aguarde o Brasil e seu mal-estar terminará mais cedo do que muitos esperam. Por enquanto, porém, a perda do Brasil são países como o ganho de Portugal: vislumbrando uma oportunidade, o país decidiu recentemente que os brasileiros, juntamente com os nacionais de vários outros países lusófonos, podem viver em Portugal até seis meses à procura de trabalho.

SOBRE O AUTOR

Oliver Stuenkel é colunista colaborador do Trimestral das Américas e leciona Relações Internacionais na Fundação Getulio Vargas em São Paulo. É autor de The BRICS and the Future of Global Order (2015) e Post-Western World: How Emerging Powers Are Remaking Global Order (2016).

Tag: Fuga de cérebros, Brasil, Imigração, Portugal

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As opiniões expressas neste artigo não refletem necessariamente as de Trimestral das Américas ou seus editores.

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About the Author: Adriana Costa

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