A tragédia que matou uma família em Pipa expõe risco de acidentes com falésias | Rio Grande do Norte

A conexão com a natureza inspirou Hugo Pereira a uma mudança radical: pediu demissão em uma grande empresa de telecomunicações de São Paulo e caiu na estrada. Depois de viajar pelo Brasil em um caminhão com a cadela Brisa, conheceu Stela Souza em Pipa, um dos principais destinos turísticos do Rio Grande do Norte. Eles se casaram e tiveram um filho, Sol (Veja no vídeo acima o artigo que é mostrado no Fantástico deste domingo)

“Ele sempre foi uma criança ligada à natureza, aos animais, e tinha um coração maior que ele … Criança que viveu a vida, na aventura dele, né?”, Lembra Paulo Pereira, pai de Hugo.

Hugo trabalhava como gerente em um hotel em Pipa e Stela, que era psicóloga, cuidava do Sol.

“Em janeiro eu estaria aqui em Pipa para conhecer meu neto, certo? (…) Ele conheceu ela aqui na Pipa. Foi um encontro de almas gêmeas. E aí eles resolveram morar juntos e nasceu o Sol … Era um menino alegre, sempre sorrindo … Como o Hugo ”, disse Paulo.

“Essa era a filosofia de vida dele, né? A natureza, o mar, as plantas, sentir a areia, sentir o vento …”, diz Mateus Souza, irmão de Stela.

Na última terça-feira (17), Hugo, sua família e um cachorrinho estavam descansando na praia quando parte de uma falésia de quase dois metros de altura caiu sobre eles.

Stella Souza, 33, Hugo Pereira, 32, e o filho Sol de Souza, 7 meses, morreram na queda de um penhasco em Pipa – Foto: Redes Sociais

A região onde ocorreu a tragédia é uma das mais movimentadas da praia de Pipa. Além do mar mais calmo, ideal para banho, vêm daqui os passeios de lancha. Na hora do acidente, por volta do meio-dia, havia muita gente na praia. O sol estava forte e o casal se aproximou da falésia, procurando uma sombra para se proteger do sol e proteger o bebê de sete meses. Algumas pessoas avisaram sobre o risco de colapso e o casal saiu com o filho por um tempo. Logo depois, a estrutura desabou e atingiu os três.

“Vi naquele momento que um pedaço da barreira caiu e atingiu as três pessoas, os índios daqui correram, começaram a cavar”, lembra o barqueiro Jonas Emanuel.

“Foi uma coisa muito horrível. Vi uma cena muito triste (ele se mexe e chora) que foi o afastamento da criança, muito triste”, diz o advogado Marcos Aurélio Faria.

A enfermeira Isamara da Silva conta que percebeu que o bebê ainda respirava e tentou reanimá-lo. “Eu fiz aquelas compressões e fiz a manobra boca a boca. Pelo menos oito vezes. Eu soprei ar em seus pulmões, mas infelizmente o médico disse que não havia jeito.”

As falésias da Pipa recebem mais de 7 mil turistas por dia, na alta temporada. Esses acidentes geográficos desenhados pela ação do mar podem ser encontrados em parte do litoral do país. No sul, as rochas vulcânicas são mais resistentes, mas com níveis de instabilidade que precisam de cuidados. No Nordeste, as paredes sofrem mais com o impacto das marés e das ondas, por isso os deslizamentos são mais frequentes.

Parte da falésia desaba em Pipa, deixando três vítimas

Sobre a ação do mar nas falésias, Rodrigo Guimarães, professor de gestão ambiental da UERN, lembra que “as ondas quebram e retiram o material da base, e quando escavam criam essas espécies de cavernas, cavidades”. “Lá ela desestabiliza a frente da falésia, na área da parede da falésia, porque tira o suporte”, diz.

Moradores dizem que alertam os turistas sobre os riscos. “Sempre alertamos as pessoas, pedimos que fiquem longe da barreira”, reforça Jonas Emanuel.

A cidade de Tibau do Sul afirma ter colocado placas avisando da periculosidade das falésias, mas que foram arrastadas pela maré. “O município ficou preocupado, colocaram placas indicando as áreas de risco e nossos fiscais que estão na praia instruíram a vítima a sair daquele local, que era um lugar perigoso”, disse o prefeito Modesto Macedo.

“A Câmara Municipal nunca veio aqui para fazer isso, para colocar algo aqui avisando que aqui é perigoso, não é?”, Declarou o comerciante Joca Silva.

“Nunca vi nenhum sinal. Só as pessoas que trabalham aqui quando viram as pessoas perto das falésias, as pessoas que iam pedir para as pessoas saírem”, reforça Miller Romualdo, um comerciante.

O jornalista Renato Pavarino Martins ficou chocado ao saber do acidente porque lembrou que este ano também fugiu do sol à sombra das falésias de Pipa. “Eu, em particular, não vi nenhum sinal de alerta para o perigo de deslizamentos de terra. Se não fosse o pescador nos avisando, teríamos ficado lá como outras pessoas”.

Ao caminhar pela faixa de areia é possível observar como o processo de erosão atinge a estrutura da arriba. Ao fundo, o avanço da maré abre cavidades como esta. No topo estão rachaduras e blocos que ameaçam cair. As ações da natureza como a chuva e o vento são potencializadas pelas edificações nas bordas das falésias.

“São ocupações de risco, e é risco para quem está em cima e risco para quem está embaixo. E essas ocupações potencializam, aceleram o processo de erosão e queda de blocos da falésia”, explica o professor Rodrigo Guimarães.

Após o acidente, a prefeitura declarou situação de emergência em Pipa. Dez lojas e restaurantes no alto das falésias foram proibidos pela Defesa Civil.

Para o Ministério Público Federal, que abriu 18 inquéritos para apurar irregularidades nessas áreas ambientais, foi anunciada a tragédia. “Estudos apontam para essa fragilidade, mesmo em outras localidades da praia de Pipa e no município de Tibau do Sul, isso já identificou um risco R4, que é o maior risco dentro da escala em outras áreas onde a atuação do O MPF já foi desenvolvido ”, revela o procurador Víctor Mariz.

Questionado se o Ministério Público já havia feito recomendação à Câmara de Vereadores sobre os riscos, o procurador disse não haver “nenhuma ação específica para este local”, mas reforçou que “é uma ação rotineira exigir que as autoridades respeitem a legislação que protege o ambiente e evita que se construam nas margens das falésias distâncias inferiores a 100 metros ”.

Parte da falésia desaba e deixa 3 mortos da mesma família em Pipa – Foto: Arquivo pessoal

Pela Lei Federal de 2004, até a rua principal de Pipa e o cemitério da cidade, que fica na beira das falésias, seriam irregulares. O problema é que os prédios são mais antigos que a lei.

“Esses edifícios mais antigos já são objeto de estudos geotécnicos, estudos paramétricos que atestam, que reconhecem se há segurança ou estabilidade na sua permanência. Os estudos estão sendo finalizados e, com base neles, o MPF decidirá para definir as medidas que serão adotadas. Havendo segurança para a permanência desses estabelecimentos, o MP exigirá medidas de compensação ambiental para que esses estabelecimentos continuem funcionando ”, informou o advogado.

“O governo não cuida da população, essas barreiras estão caindo há dias. Uma família morre por causa de uma barreira. Sim, eu quero justiça. Pelo menos para que outras famílias não passem pelo que estou passando”, lamentou Sânzia Maria. A mãe de Stela.

“A gente vê que a natureza cobra seu preço … Que décadas de expansão desordenada e desrespeito à legislação ambiental causam não só danos ao meio ambiente, mas consequentemente danos à vida e integridade das pessoas”, destacou o advogado Victor Mariz.

A prefeitura de Tibau do Sul declarou situação de emergência na sexta-feira (20), após o desabamento. O decreto é válido por 90 dias. De acordo com o documento, a área da praia foi afetada por um desastre geológico natural “por movimentos massivos com deslizamentos de terra / pedras”.

O governo do Rio Grande do Norte anunciou na noite desta quinta-feira (19) que vai criar um grupo de trabalho para ajudar o município de Tibau do Sul na fiscalização das áreas temporariamente proibidas nas falésias da Pipa. O Poder Executivo também garantiu a instalação da estrutura de isolamento da orla, no trecho Centro de Pipa à Praia do Madeiro, para proteção de banhistas e comerciantes. As faixas colocadas até agora, no fundo da areia, acabam sendo arrastadas pela maré alta e são substituídas pelo município.

As forças de segurança e órgãos ambientais farão parte da equipe que auxiliará na fiscalização da área.

Na tarde desta quinta-feira (19), a equipe da Secretaria Nacional de Proteção e Defesa Civil esteve no trecho da falésia que desabou junto com as equipes de Defesa Civil do RN e do Idema para fiscalizar o local.

Segundo o órgão nacional, a atual proibição é a melhor alternativa de curto prazo. Outras ações serão consideradas após o estudo das áreas. O trecho foi fechado um dia após o acidente pela prefeitura de Tibau do Sul. A equipe coletou amostras das falésias para análises que poderão ser utilizadas em futuras decisões sobre o trecho. O geólogo explica que qualquer medida de proteção de médio ou longo prazo na região depende de mais estudos.

As obras também são acompanhadas pelo Ministério Público Federal.

Parte das falésias da praia de Pipa desabou na visitação de turistas nesta terça-feira (17). – Foto: Redes Sociais

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