Ana Vaz sobre o título de Locarno É noite na América

Apresentado na competição Cineasti del Presente, em Locarno, o primeiro longa-metragem da cineasta e curadora brasileira Ana Vaz retrata a batalha entre a expansão urbana de Brasília e o deslocamento de sua fauna local.

Retoma algumas obsessões do artista e questiona a identidade urbana da capital brasileira, denunciando tanto seu papel institucional quanto a artificialidade de sua arquitetura. A produção foi possível graças a uma colaboração italiana, francesa e brasileira realizada pela Fondazione In Between Art Film e Spectre Films.

Este documentário sombrio e vanguardista em 16mm começa com uma série de longos alambiques e panelas que nos colocam no crepúsculo que espreita Brasília, cuja frenética distinção nos mergulha nas sombras profundas de um cenário urbano. Vaz refere-se à sua estreia como “um filme que sai do escuro, uma peça que pensa e estremece com o escuro”.

As imagens de “It is Night in America” viajam pelo crepúsculo, amanhecer e sombras, mas nunca em pleno sol. Para ser mais preciso, Vaz explica que empregou uma técnica de filmagem diurna, conhecida nos primórdios do cinema, que atingiu seu auge no auge do western, “Day By Night”. Esta parte técnica contribuiu para os tons azuis particulares do filme.

Para Vaz, essa “fábula política” é uma espécie de encontro com o próprio faroeste, gênero que extrai seus filmes de seu próprio conceito, dado o foco frequente do faroeste em assentamentos. “O oeste é o gênero do que acontece durante o processo de colonização”, diz Vaz. “Há também essa conversa imaginária com a história do cinema, pela própria materialidade das imagens que você viu”, acrescenta.

Na trama principal do filme, a montagem paralela de planos 16mm é a principal ferramenta narrativa utilizada para apresentar a luta da vida animal em Brasília: Por um lado, observamos pacientemente as imagens de vários animais, agentes e guardas; de outro, as molduras destacam as construções urbanas.

Nenhum dos animais foi treinado de forma alguma, nem estão ali para atuar como figurantes, estão apenas na rua, tendo sido expulsos de seu habitat, diz Vaz. “O olhar da modernidade não os captura com muita frequência; essas presenças são um tanto invisíveis”.

“Meu uso do filme 16mm não é apenas uma escolha estética, mas sim uma insistência na materialidade da imagem”, acrescenta Vaz. O artista também fala sobre filmar com material fílmico vencido para expressar esse drama catastrófico de espécies em perigo de extinção. “Estamos lidando com dois processos de extinção que estão acontecendo no filme de uma forma ou de outra. A extinção da própria imagem e a extinção desses seres.”

Vaz dedica um breve espaço ao contexto histórico: A construção de Brasília como projeto político durante o governo de Juscelino Kubitschek (1956-1961). Vemos gravações de animais sendo removidos durante a transferência da capital brasileira do Rio de Janeiro para a nova cidade em uma obra que prometia completar 50 anos de desenvolvimento em cinco.

Esses erros mantiveram a fortuna refém, até hoje; “É uma crise histórica, sabemos muito bem que o retorno dos fantasmas que estamos enfrentando hoje vem do legado da ditadura militar, que é apenas uma forma moderna de trazer o colonialismo para a era contemporânea. Nunca vamos sair do passado, o passado nunca passa”, enfatiza.

A primeira aparição de Ana Vaz em Locarno surge após a sua aparição na Berlinale em 2020, onde exibiu “Apiyemiyekî?” sob muitos aplausos no Fórum Alargado.

“É Noite na América” teve sua estreia mundial no Festival de Cinema de Locarno em 9 de agosto. Espera-se que mais aparições no festival sejam anunciadas em breve.

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