Apenas 1 em cada 4 matriculados em programas de mestrado e doutorado no Brasil é negra

Foto ilustrativa Roberta Aline

A ciência produzida no Brasil é branca e, em algumas áreas do conhecimento, é ainda mais branca. Um retrato da pós-graduação do país mostra que, em média, um em cada quatro matriculados em programas de mestrado e doutorado é negro. Em áreas como a medicina, a participação de negros cai para um em cada dez cientistas em treinamento.

As informações raciais foram tabuladas pela Folha de S.Paulo a partir de um banco de dados aberto de 2018 da Capes, órgão do MEC voltado para a pós-graduação no país. Apenas os alunos de graduação do país que informaram a cor da pele foram considerados nos cálculos, que é feito por autorrelato.

Considerar a pós-graduação no Brasil é importante porque os cientistas em formação produzem grande parte do conhecimento nacional. Isso acontece por meio de bolsas de pesquisa, uma espécie de “salário” pago pelas agências de fomento aos alunos de graduação para trabalharem integralmente com a ciência.

Os dados mostram que em algumas áreas da saúde (como odontologia e medicina), direito, engenharia e arquitetura, consideradas “elites”, a participação de negros entre os estudantes de graduação está despencando.

“Já fui a única negra que apresentou pesquisa em uma sala com 24 cientistas em um congresso acadêmico”, diz Thays Torres Oliveira, mestranda da Ufpel (Universidade Federal de Pelotas) em uma clínica odontológica, uma das áreas mais caiado da ciência nacional.

Oliveira chegou à universidade há dez anos, do Maranhão, para estudar odontologia. Ele encontrou apenas um colega negro na classe (de 44 alunos) e um veterano negro. Na época, não havia professores negros ou pardos no curso.

Hoje, na pós-graduação, conhece mais colegas negros, incluindo um colega cabo-verdiano. Desde 2017, a Ufpel reserva 20% das vagas de mestrado e doutorado para cientistas negros em formação.

A medida foi uma resposta a uma portaria de maio de 2016, última assinatura da presidente Dilma Rousseff (PT) antes do impeachment. O texto previa que as universidades federais criassem sistemas de reserva para alunos negros, indígenas e portadores de deficiência nos cursos de mestrado e doutorado.

Simbolicamente, a revogação da portaria, em junho deste ano, foi também o último ato do ministro da Educação, Abraham Weintraub, antes de seu afastamento.

“Não tenho alunos negros em cursos de graduação ou pós-graduação trabalhando com ciências”, diz o astrofísico Alan Alves Brito. “Eu também não tenho colegas ou colegas de trabalho.” É o único professor negro entre os mais de cem professores do Instituto de Física da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul). Brito acumula experiências como único cientista negro em congressos nacionais e internacionais em sua área de pesquisa. Em um, ele foi confundido com um trabalhador de cozinha. Eles também perguntaram se ele era músico. “Eles nunca acreditam em mim quando digo que sou um cientista.”

Cientistas treinados que afirmam ser especificamente negros desaparecem ainda mais nas estatísticas nacionais. Em odontologia e medicina, menos de 2% dos alunos de graduação são negros. É a taxa nacional mais baixa.

A falta de diversidade na produção científica é um problema antigo conhecido dos estudantes de ciências. Como a maioria dos pesquisadores no Brasil pertence ao mesmo grupo étnico, questões relacionadas a outros grupos podem ficar de fora dos estudos ou ter interpretações tendenciosas.

Na prática, corremos o risco, por exemplo, de trabalhar mais para entender e tratar doenças comuns em brancos do que em negros e pardos, que representam mais da metade da população do país.

No outro extremo, no campo da antropologia, quase 18% dos pesquisadores graduados do país são especificamente negros, um recorde nacional. Na sequência, ele figura no serviço social, já com menos de 13,6% de negros entre os cientistas em formação na área.

A distribuição de cientistas negros na pós-graduação também é desigual em todo o país. Enquanto no norte 61,2% dos pós-netos são negros (representando cerca de 4.000 alunos), no sudeste os negros são apenas 21,2% dos matriculados (11,6 mil alunos no total) . E é preciso lembrar que os programas de pós-graduação estão concentrados principalmente na região sudeste do país.

Como os dados raciais começaram a ser coletados apenas em 2017 pela Capes, não é possível fazer uma análise sobre a evolução racial na pós-graduação no país. Isso dificulta a análise e definição de políticas públicas na área.

No entanto, algumas universidades fazem suas próprias pesquisas. A geóloga e professora do Instituto de Geociências da USP, Adriana Alves, coletou dados sobre a distribuição da cor da pele nos três últimos níveis da carreira acadêmica da instituição paulista: doutorado, pós-doutorado e docência.

Boas notícias: a taxa de alunos negros (pretos e pardos) aumentou de 2010 a 2020 na faculdade, de 75 para 168 (um aumento de 124%), mas ainda representa um quinto do total de concluintes.

No entanto, o número de pesquisadores negros com pós-doutorado ainda representa 11,4% do total.

“O crescimento dos alunos negros ocorre em detrimento do segundo grupo mais hegemônico, que são os amarelos [orientais], não branco. Os brancos não flutuaram como percentual na última década na pós-graduação, enquanto os orientais tiveram uma queda, ao mesmo tempo que os pretos e pardos subiram ”, explica Alves.

A geóloga se lançou nas questões de gênero e raça na pós-graduação e viu como é expressiva a diferença entre brancas e negras, morenas e indígenas na carreira acadêmica. Por isso, ele apresentou na semana passada um programa de pós-doutorado voltado especificamente para mulheres negras, que deveria ter financiamento privado.

“Mesmo sem as taxas da pós-graduação, o número de mulheres negras quintuplicou. O número de mestiços atingiu o de mulheres brancas. A mudança agora deve vir de cima.” Para ela, é necessário que os brancos “parem de falar dos negros como vítimas de racismo e passem a falar do privilégio de serem brancos”. “Os cientistas geralmente não admitem que têm preconceito. Nas bancas, a discussão vale a pena, mas como um negro se sentirá encorajado e valorizado se a banca for totalmente branca?”

Alves diz que a iniciativa vai priorizar áreas onde não há presença de estudantes negros e deve diminuir a baixa representatividade, tão evidente e cujas iniciativas universitárias, nos últimos anos, têm sido escassas. “Quero colocar um exército de ‘Adrianinhas’ em todas as áreas da ciência”, finaliza.

Folhapress

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