China comprou US $ 24 bilhões do agronegócio brasileiro de janeiro a julho

Foto: Pixabay / Edição: Canal Rural

O produtor de soja e milho Moacir Fala, que cultiva 20 alqueires em São Jorge do Ivaí, no noroeste do Paraná, não ri de nada. “Este ano não posso reclamar: foi possível ganhar dinheiro”, diz. Vendeu praticamente toda a safra de soja a um preço médio de R $ 100 a saca, 42% a mais que no ano passado, pagou as dívidas de anos anteriores e ainda tem dinheiro sobrando. “Ainda não decidi o que vou fazer com o lucro, quem sabe investir em tecnologia para produzir mais na próxima safra”. Para o milho safrinha, que acaba de ser colhido, mas ainda não foi comercializado, as perspectivas também são favoráveis. Em troca do mês, a saca do grão ficou em R $ 61, preço recorde.

O cenário muito favorável para o campo, com safra farta, dólar em alta e preços em reais, não estava no radar da maioria dos produtores que tinham renda.

O impulso do agronegócio veio do outro lado do mundo, sustentado pelo real desvalorizado quase 40% nos últimos 12 meses, o que atraiu compradores. A China decidiu construir reservas alimentares estratégicas, depois de sentir o risco de mais de um bilhão de pessoas ficarem sem alimentos devido ao rompimento da pandemia e ameaçadas pela guerra comercial com os Estados Unidos. O país também busca repor a produção de carne suína, um dos alimentos mais consumidos pelos chineses, depois que seu plantel foi dizimado pela peste suína africana.

A compra de alimentos do gigante asiático no Brasil injetou US $ 24 bilhões no agronegócio entre janeiro e julho deste ano, um recorde para o período e quase 30% superior ao registrado nos mesmos meses de 2019. Essa voracidade Nas compras de bovinos, suínos, aves e principalmente soja, que responderam por 72% das compras no período, os preços desses produtos em reais, que aparecem nos índices de inflação ao consumidor, pressionaram.

“Os chineses roubaram o pote”, diz o economista Fábio Silveira, sócio-diretor da MacroSector, lembrando que o câmbio deixou o produto brasileiro competitivo para os chineses e foi o principal fator de enriquecimento das cadeias produtivas do agronegócio. Em suas contas, o ano deve terminar com 35 bilhões de dólares de exportações do agronegócio brasileiro para a China, sendo 26 bilhões de dólares apenas de soja e 7 bilhões de carnes.

De janeiro a julho, o Brasil exportou 50,5 milhões de toneladas de soja para a China, volume 32% superior ao do mesmo período de 2019, afirma Wagner Ikeda, analista sênior do Rabobank Brasil. “É vendida entre 90% e 95% da safra de soja”, afirma.

Esse forte movimento de compra da China gerou uma situação inusitada: o Brasil, maior produtor mundial de soja, teve que ampliar as importações de grãos, apesar do volume ser uma parcela minúscula em relação à safra nacional. De janeiro a julho, o país importou 400 mil toneladas de soja, quatro vezes mais do que no mesmo período do ano passado.

“A importação de soja não muda nada”, afirma o presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Soja, Bartolomeu Braz. Na opinião dele, é uma medida da indústria para reduzir o preço, que na última quinta-feira era de R $ 127 a saca. Esse movimento de redução de preços por conta das importações não deve ocorrer porque o preço é formado no mercado internacional. “O preço está alto porque o dólar está alto.”

Hoje, 45% da próxima safra de soja que ainda nem foi plantada é vendida com antecedência para compradores internacionais, afirma o presidente da Aprosoja. Em tempos normais, as vendas antecipadas estariam entre 20% e 25% neste momento.

Churrasco caro

A China também passou a comprar carne produzida internamente. Até agora, o país respondeu por 49% dos volumes exportados pelo Brasil de carne suína, 41% de carne bovina e 17% de frango, segundo Wagner Yanaguizawa, analista do Rabobank Brasil. “Os produtores com viés no mercado externo estão indo muito bem, estão felizes porque estão conseguindo aumentar as margens com a desvalorização do real.”

No entanto, quem produz para o mercado interno está em um cenário difícil porque o preço das matérias-primas subiu muito e não estão obtendo os mesmos resultados porque o consumo está desacelerando, explica Yanaguizawa.

Nos últimos dias, o preço da arroba do boi gordo atingiu R $ 238,95, o maior valor em mais de 20 anos.

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