Como uma cientista negra usa suas habilidades de hackers contra o racismo – 17/7/2020

Como uma cientista negra usa suas habilidades de hackers contra o racismo - 17/7/2020

Ana Carolina da Hora, 25 anos, tem uma personalidade inquieta, como um personagem de desenho animado com várias idéias de balão girando em torno de sua cabeça. Nina, como ela gosta de ser chamada, está sempre pensando em criar usos do conhecimento para combater o racismo.

Nina é uma estudante universitária de ciência da computação, programadora, pesquisadora, voluntária, ministra aulas e palestras e, em tempos de pandemia, participa de eventos on-line. A próxima será nesta sexta-feira (17), na Universa Talks.

Todas as ações de Nina visam compartilhar conhecimento com jovens negros, principalmente mulheres. O objetivo é que eles se sintam habilitados a ocupar seus espaços no mercado de tecnologia.

O termo pirataria está associado à tecnologia há muito tempo, mas se aplica a tudo porque se trata de re-significar um padrão. Você está pegando um que já existe e dando um novo significado para melhorar alguma coisa. A educação é a melhor maneira de invadir todos os sistemas [quebrando padrões que estimulam a desigualdade]
Nina da Hora

Hackear o racismo

Uma pesquisa da Olabi, organização social focada em estimular a diversidade tecnológica, mostra que os profissionais da área são predominantemente homens (68,3%) e brancos (58,3%).

Quando se trata de educação, os homens têm uma taxa mais alta em comparação com mulheres e negros, amarelos e indígenas. Segundo dados do IBGE de 2018, apenas 20% dos profissionais de TI no Brasil são mulheres.

Nina conseguiu combater a desigualdade racial e de gênero por meio de oportunidades de estudo e trabalho no setor, e por esse motivo reforça a quantidade de representação necessária. Seu objetivo é ajudar outras pessoas a fazer o mesmo.

Para este ano, a aluna deseja investir em seus dois projetos sob essa perspectiva:

  • Computação da Hora: vídeos do YouTube nos quais você ensina conceitos de computação de maneira simples e gratuita. Além disso, o projeto também incluirá a criação de materiais didáticos sobre pensamento computacional e discussões sobre o problema do racismo algorítmico.
  • Ogunhê, podcast sobre as contribuições dos cientistas africanos para o mundo. Segundo Nina, o objetivo é resgatar a história desses profissionais e dar visibilidade à ciência que eles fazem, para que os negros se sintam mais representados.

“O racismo algorítmico envolve ferramentas, maneiras que a tecnologia encontra para espalhar o racismo no mundo real. A tecnologia é feita por seres humanos, principalmente brancos. Eles não têm uma experiência em que podem ver certas ações, palavras que podem ser racista “. “Ele explicou.

Para Nina, combater o racismo significa quebrar esse padrão, aumentar o debate e exigir diversidade no mercado de trabalho. Algumas das maneiras que você mencionou explicam aos jovens o viés do algoritmo que reproduz vieses e os ajuda a desenvolver um senso crítico das tecnologias que eles usam.

“Queremos trazer de volta a história da África e entender quando o racismo algorítmico começa. Tem a ver com a nossa origem e com a maneira como lidou com as tecnologias antigas”, acrescentou.

Nina gosta de ensinar tecnologia de maneira simples e acessível

Imagem: arquivo pessoal

Um cientista da construção

Refletindo sobre a importância de fortalecer seu papel como cientista e mulher negra, a aluna cita os eventos da adolescência e ingressa na faculdade como coisas que influenciaram quem ela é hoje.

Nina nasceu no Rio de Janeiro, mas foi criada em Duque de Caxias, região metropolitana, por sua mãe, avó e tias; Ele até brinca que ele tem cinco mães. Todos os professores “Lembro com muito carinho o quanto eles me ajudaram. E não estava explicando o que era matemática, mas sim acreditando no que eu queria, me apoiando”, afirmou.

Um exemplo desse apoio ocorreu quando Nina tinha 15 anos, quando trocou a oferta da família de realizar uma festa de aniversário pelo dinheiro para participar de um evento de tecnologia e entretenimento digital, chamado CG Extreme, realizado no Rio de Janeiro em esse momento.

“Todo mundo se reuniu, eles me deram um pouco para pagar a inscrição. Lembro-me de quando conversei com minha mãe sobre a troca de presentes, ela me olhou como se dissesse ‘garota, quem é você?'”, Ele brincou. .

Enquanto participava de conferências, Nina aprendeu diferentes maneiras de usar a tecnologia, como criar filmes e jogos.

“Havia muitas pessoas ótimas. Consegui tirar fotos com o produtor dos personagens dos filmes [da saga] Harry Potter, explicou as tecnologias que ele usou, mostrou que ele tinha usado programação. E naquela época minha mãe não me deixou ir longe [do bairro]. Eu estava com medo, mas funcionou “, lembrou.

Animada, Nina começou a trabalhar em eventos como esse como voluntária. Havia tantos que hoje é difícil lembrar quantos participaram.

Além de ouvir histórias de profissionais brasileiros e estrangeiros nas áreas em que sonhava trabalhar, Nina percebeu que poderia entrar nesses espaços e sentir que esse também era o seu lugar.

A entrada na PUC-RJ (Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro) com uma bolsa foi bem recebida pela família no segundo semestre de 2015. Mas havia medo da mãe de Nina lá. Em parte devido à personalidade inquisitiva de sua filha, que já estava se impondo como uma jovem negra determinada a fazer a diferença na tecnologia.

“Ela disse: ‘Nina, você só conhecerá brancos e a mãe sabe que você lutará se achar que precisa prevalecer. Acalme-se'”, lembrou o aluno.

Ela não lutou, mas levou mais de seis meses para sentir que pertencia ao ambiente universitário. Ela recebeu olhares distorcidos por ter vindo da periferia, pela cor de sua pele, por ser mulher.

“Quando entrei na PUC, me senti invisível. Todos tinham seus grupos de amigos, muitos já se conheciam porque haviam estudado juntos em escolas de ensino médio da zona sul. Ninguém falou comigo e eu não falava com ninguém. Minha preocupação naquele momento foi se eu pudesse aguentar, sabia? “

Nina nem sabia disso na época, mas usou conhecimento e tecnologia para solucionar o problema. Ele se apegou a estudos, projetos de extensão e concursos de inovação.

Em 2016, coordenou o projeto Pyladies na PUC, um grupo de meninas que ensinou a linguagem Python a outras meninas, treinando-as para o mercado de computadores.

Ana Carolina Da Hora, wwdc 2018, evento da Apple - Ficha pessoal - Ficha pessoal

Nina durante sua participação na conferência de desenvolvedores da Apple

Imagem: arquivo pessoal

A primeira oportunidade de descobrir outro estado e viajar de avião ocorreu graças à tecnologia. Foi em 2017, no evento de programação Campus Mobile, organizado pela USP (Universidade de São Paulo). Com o desenvolvimento de um sistema de sinalização para auxiliar os ciclistas, ele conquistou o quinto lugar na competição.

O bom desempenho resultou em um convite dos organizadores do evento para participar no ano seguinte como embaixador. Naquela época, Nina também estava dividida com estágios na área.

Em 2018, outra viagem. Agora internacional. Nina foi uma das brasileiras convidadas pela Apple a participar da conferência anual de desenvolvedores, que acontece anualmente nos Estados Unidos, com tudo pago.

Para ela, o ano passado foi apressado com vários projetos e eventos. Agora, em 2020, Nina decidiu desistir de algumas iniciativas para se dedicar melhor aos outros depois de terminar a universidade.

Mesmo com seu diploma, a jovem se reconhece como uma cientista da construção porque acredita que o conhecimento é apresentado em diferentes formas e em todos os momentos. Para ela, quanto mais maneiras de aprender a democratizar o conhecimento tecnológico e incentivar jovens negros a entrar no mercado de TI, melhor.

“Sei que é difícil resolver, mas é a longo prazo. De maneira alguma acredito que os projetos, o conteúdo e tudo o que faço hoje gerem mudanças no curto prazo. Entendo que é preciso ter paciência”, concluiu. .

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About the Author: Edson Moreira Bezerra

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