Costa do Brasil deve enfrentar mais ondas de calor e secas

No início de 2014, o sistema Cantareira, principal reservatório que alimenta São Paulo, atingiu menos de 10% de sua capacidade devido ao intenso calor e à seca, obrigando a região mais populosa do Brasil a restringir severamente o consumo de Água. Cientistas que estão trabalhando para entender o fenômeno dizem que secas como essa podem acontecer novamente e provavelmente afetarão ainda mais a região.

Ondas de calor marinho (períodos de temperaturas extremas no oceano) estão associadas a secas, que estão relacionadas ao calor extremo não apenas em terra, mas também no oceano.

Um estudo liderado por Regina Rodrigues, do Departamento de Oceanografia da Universidade Federal de Santa Catarina, Brasil, lança luz sobre esse mecanismo. Foi publicado no ano passado em Geociências da Natureza e será apresentado na AGU Fall Meeting 15 de dezembro.

Ao analisar os dados de temperatura da superfície do mar da NOAA e dados atmosféricos do Centro Europeu de Previsões do Tempo de Médio Prazo, a equipe de Rodrigues descobriu que sistemas persistentes de alta pressão no leste da América do Sul inibem a formação nuvens sobre a região causando secas. “A falta de nuvens, por sua vez, permite que mais radiação solar chegue à superfície do mar, causando ondas de calor terrestres e marinhas”, disse. Como resultado, no início de 2014, o oeste do Oceano Atlântico Sul também experimentou uma onda de calor marinho intenso e persistente.

Um novo estudo em Relatórios científicos mostra que esse mecanismo também ocorre em outras partes do mundo. “Descobrimos que a maioria das ondas de calor subtropicais marinhas extremas também foram causadas por sistemas persistentes de alta pressão atmosférica e velocidades de vento anormalmente fracas”, disse Rodrigues, que também foi co-autor do estudo. Os ventos fracos podem intensificar as ondas de calor marinhas, reduzindo a capacidade do oceano de resfriar.

Ondas de calor e secas andam de mãos dadas

As secas e ondas de calor tendem a se tornar mais frequentes. Usando dados de 1982 a 2016, Rodrigues e sua equipe observaram que a frequência, duração, intensidade e extensão desses fenômenos aumentaram.

João geirinhas, investigador da Universidade de Lisboa, encontrou resultados semelhantes noutro estudo que se encontra no prelo. Sua equipe analisou o aumento da frequência de secas e ondas de calor entre 1980 e 2018. “As secas e as ondas de calor caminham juntas, pois as primeiras podem causar as últimas”, disse ele. Geirinhas apresentará o trabalho na reunião de outono da AGU em 15 de dezembro.

O estudo da Geirinhas constata que a ocorrência de secas e ondas de calor disparou depois de 2010. São Paulo, por exemplo, atingiu o pico em meados da década de 1980 (com menos de 30% de probabilidade de que uma onda de calor marítima e uma seca ocorreram simultaneamente), mas esse pico foi superado em meados da década de 2010 (quando havia quase 50% de chance de simultaneidade).

“As mudanças climáticas podem tornar esses efeitos mais fortes e duradouros”, disse Geirinhas.

Estudos complementários

A atividade humana pode contribuir para as condições que influenciam as ondas de calor marinhas e a seca. Wilson Feltrim, coordenador do Laboratório de Climatologia da Universidade Federal do Paraná, alertou que o desmatamento pode contribuir para o fenômeno. “A perda de árvores diminui as chuvas ano após ano. O que aconteceu em 2014 pode se tornar mais frequente devido ao desmatamento e às mudanças climáticas ”, acrescentou.

Para Feltrim, os estudos de Rodrigues e Geirinhas são complementares. “Enquanto Rodrigues olha a gênese do fenômeno, Geirinhas olha a intensificação de sua ocorrência”, disse o pesquisador, que não participou de nenhum dos estudos.

Maria assunção dias, professor titular de ciências atmosféricas da Universidade de São Paulo que também não participou de nenhum dos estudos, concordou com Feltrim. “Esses estudos apresentam diferentes peças de um quebra-cabeça que se encaixam para ajudar a explicar um evento absolutamente sem precedentes em nossas vidas como pesquisadores.” As mudanças que estamos vendo no clima provavelmente não foram testemunhadas pela espécie humana antes, acrescentou.

“Poderia ter acontecido milênios antes, mas não tínhamos os dados para entender e não estávamos aqui para ver”, disse Dias.

—Meghie Rodrigues (@meghier), Escritor científico

14 de dezembro de 2020: Este artigo foi corrigido para esclarecer o trabalho de Regina Rodrigues.

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