Crônicas de uma época: o último abraço

Crônicas de uma época: o último abraço

O simpósio sobre questões globais começou com entusiasmo após o fiasco do ano anterior. A pessoa que subiu ao palco na sede virtual da Organização foi Eva, um holograma capaz de se materializar no salão de milhares de espectadores e oferecer seu discurso de boas-vindas no idioma local. Depois veio a CEO, Alexandra Muraffo, que cumprimentou os membros do painel digital e deu um breve histórico dos recentes desafios da saúde, começando com a pandemia de Covid-19, um marco de vinte anos atrás.

– Estudos da década de 1920 indicaram que a população humana cresceria até a virada do século; Hoje, somos forçados a lidar com diferentes projeções, baseadas em taxas de fertilidade em rápido declínio, em mais da metade do planeta. É nossa obrigação identificar maneiras de sair dessa situação. Para mostrar os últimos avanços nessa direção, o superintendente de assuntos relacionados à reprodução humana, o professor emérito da Harvard Medical School, Dr. Paul Bassen, falará agora.

– Saudações a todos. Como muitos de vocês sabem, o Programa de Reprodução Molecular Extrauterina Rápida (FMRP) foi desenvolvido para reverter a queda nas taxas de reprodução nos países onde foi mais pronunciada, durante a segunda metade da década de 1930. Foram necessários quatro anos de tentativas, até 2039, tivemos que encerrar o programa, devido à baixa adesão e ataques recebidos, muitos deles sem base.

Somente no Japão, doze aparelhos de FMRP foram esmagados por casais que declararam interesse em levá-lo para casa e, assim, acompanhar o processo de formação embrionária. Veja bem, são casais que vieram até nós com a intenção de ter um filho, apesar da falta de desejo de fazer sexo um com o outro, e que, na hora de ir ver, destruíram nosso equipamento, eliminando as células germinais e, algumas vezes, embriões já sintetizados. O mesmo padrão foi observado em vários países da Europa e América.

Ao longo do ano passado, fizemos um grande esforço para entender as raízes do fracasso do FMRP e o modo de pensar da Geração C, como os jovens nascidos na década de 1920 são conhecidos e, mais do que nunca, precisamos aumentar a conscientização.

Isso trouxe resultados positivos e é com grande satisfação que apresento o Programa de Otimização da Fertilização Humana (HRRP). Seu princípio é simples: oferecer terapia molecular gratuita com risco mutagênico zero, capaz de garantir até 98% de possibilidades de fertilização em qualquer relação heterossexual desprotegida, entre casais que não são portadores de distúrbios reprodutivos e têm menos de 45 anos de idade.

A terapia abala drasticamente os gametas, enquanto reduz abortos e outros eventos adversos. Esta é uma grande mudança de paradigma; Em vez de enfatizar a ajuda de casais que não querem fazer sexo, faremos esforços na fertilidade daqueles que o fazem.

O sinal piscando abaixo da tela do alto-falante indica que alguém no painel digital está pedindo para falar, não alguém da platéia, em algum lugar do mundo, mas alguém que a organização chamou para participar. Mesmo em casos como esse, as solicitações de voz são frequentemente ignoradas, dado o tempo estritamente curto que cada uma possui. Mas desta vez, foi diferente e o Dr. Bassen abriu o microfone para quem o solicitasse.

Isso não vai funcionar. Nada disso vai funcionar. Não o vês

– Por que não funciona, senhorita …?

Dra. Luiza Chávez, presidente da associação interamericana de assistência social. A voz fina e levemente trêmula emitiu algo que não se encaixava em seus títulos.

Não funcionará porque o diagnóstico está errado. Os bebês não nascem porque as pessoas não querem. Não se trata de saber se é mais fácil ou mais difícil engravidar. O problema é que a intimidade é muito baixa; sexo ou fertilidade, se são realmente baixos, são meras consequências.

– O que te faz pensar isso?

– Eu não sei … parece que realmente aprendemos a ficar juntos.

– E como aconteceu?

– Isso aconteceu no abandono do abraço.

– abraço ??

– Sim. O abraço é o verdadeiro teste do sofá. É ele quem determina se algo real pode acontecer. O abraço cria uma espécie de casulo de gestos, onde as pessoas que se amam pegam o ar para respirar juntas. Daí a intimidade nasce. Depois que abolimos o abraço, as reuniões começaram. Dificilmente alguém passa no primeiro e, quando isso acontece, mais pares se formam do que pares.

Acho que está ficando confuso, doutor. Este é o papel do beijo. Não sei se você sabe, mas realizamos extensos estudos sobre o beijo e concluímos que, no fundo, não faz muita diferença na taxa de reprodução em nossa espécie.

– Olha, eu não conheço esses estudos, mas acho que o sentido do beijo é diferente. Há um tipo de beijo que serve para dizer coisas, uma espécie de contrato social. As pessoas que beijam comunicam que estão juntas, como os próprios casais, principalmente se o beijo for um beijo. Outro tipo de beijo é como sexo portátil; Esta é a sua sintonia.

O abraço, por outro lado, manifesta-se na harmonia da intimidade, não serve como contrato e não funciona como sexo, desculpe pela expressão, em miniatura. Por outro lado, o desejo de ter filhos com alguém nasce em seu casulo, a partir da inspiração do ar compartilhado.

Hum, interessante. Você pode dizer por que os abraços apodreceram?

– Suspeito que isso tenha começado décadas atrás, com aplicativos de relacionamento, que nos permitem escolher pessoas que escolhem produtos. O sentimento de abundância nos faz dispensar de maneiras semelhantes, assim que elas param de cumprir nossas aspirações. Na aula da minha filha, todo mundo se despede e se despede o tempo todo. Essa velocidade não é no momento do abraço, que precisa refazer seu casulo inúmeras vezes até que uma mariposa saia de seus gestos.

– Você quer dizer que não foram nossas campanhas que mataram o abraço? Eu sabia que não deveríamos culpar por pelo menos alguma coisa! Lol

– Não. Seu declínio é de fato anterior e se origina da tecnologia digital, que fascinou nossos ancestrais com o que os economistas chamavam de redução de atrito. Mas, é claro, chegaram as epidemias da década de 1920, os robôs da empresa e, a batata, perdemos o rumo.

pai?

Esqueça. Essa é uma expressão local que o sistema de tradução não capturou.

– Ah ok. E o que você sugere que façamos?

– Eu não gostaria de comentar, mas, como você pediu, aqui em nossa organização, organizamos um programa para incentivar o abraço. A premissa é que esse hábito deve ser restaurado ao repertório humano desde tenra idade; portanto, começa com a instituição do abraço no repertório infantil, a partir do II materno.

– Mas como isso seria feito?

– De duas maneiras: através de cursos de formação de professores e uma cláusula curricular. Para os cursos, projetamos uma espécie de holograma de abraço. É um coala gigante, que ensina os professores a abraçar.

– Ensinar a abraçar?

– sim Porque as pessoas desaprenderam o abraço.

– Hummm

– E para as escolas, a ideia é que os professores treinados em nossos cursos digitais sirvam como facilitadores e ensinem as crianças a abraçar. Essa seria a primeira aula do dia, todos os dias.

– Mas, sem dúvida, a mãe não tem um plano de estudos obrigatório, não que eu saiba.

– Sim, o programa é ambicioso e propõe mudar isso. Então, em idades posteriores, o mesmo deve ser replicado até o final do ensino médio. E assim teremos o abraço de volta em uma geração ou menos!

– Doutor, se bem entendi, você quer forçar crianças e adolescentes a se abraçarem e acha que isso resolverá nossos problemas de relacionamento?

não! Claro que não. Esta é uma linha extremamente complicada. Nosso princípio é pressionar, facilitar, o que permite que comportamentos confinados ganhem força. Nada mais.

– Mas você não acha que poderia haver algo artificial nesses … abraços induzidos?

– De maneira nenhuma. Artificial é esse negócio de tocar a biologia das pessoas para alcançar o que a natureza por si só não permite. Isso é artificial

– Eu costumo discordar. Veja bem, nosso programa de fertilização e turbinação, e até o FMRP, não interfere no livre arbítrio das pessoas, não se propõe a inserir comportamentos onde eles não existem. Simplesmente oferece as ferramentas certas para quem deseja usá-las.

– Bem, meu conceito da ferramenta correta é diferente. Não consigo conceber tratar as pessoas saudáveis ​​como a ferramenta certa. A propósito, sem querer ofender, mas lembre-se de que daqui a alguns anos celebraremos o centésimo aniversário do fim da Segunda Grande Guerra. Esse tipo de coisa me lembra as experiências brutais da época.

– Que insulto! Ainda mais aqueles que querem fazer experimentos comportamentais que se assemelham à lavagem cerebral da guerra da Coréia, do estado soviético, da prisão de Guantánamo.

– De onde tirou isso? Sou eu quem quer fazer um experimento biológico por acaso?

– O que você quer é pior.

E assim o debate continuou, empolgado, até o tempo acabar, pelo destino dos bebês que ainda não haviam prometido nascer.

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About the Author: Adriana Costa Esteves

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