Diáspora no Brasil se reconectando com o Líbano

SÃO PAULO: A atual crise socioeconômica libanesa e a explosão devastadora no Porto de Beirute em agosto de 2020 levaram muitos libaneses brasileiros a demonstrar maior interesse pelos assuntos do país árabe.

Nos últimos dois anos, os libaneses brasileiros — cujos números são estimados entre 3 milhões e 10 milhões — promoveram campanhas para ajudar o povo libanês e se envolveram mais em sua política.

Essa tendência foi intensificada por uma campanha lançada em 2021 pela Embaixada do Líbano em Brasília para incentivar os cidadãos libaneses que vivem no Brasil a se registrar para votar nas eleições marcadas para maio.

“Muitos libaneses brasileiros sabem muito pouco sobre o Líbano. Mas agora acho que as pessoas estão mais conscientes e tentando se informar”, disse o comerciante Nagib Makhlouf, 69 anos, que nasceu no Brasil, mas tem cidadania libanesa.

Ele já participou de três eleições libanesas: duas no país — ele costumava visitar para ver a mãe, que morava lá — e uma no Brasil.

“O Líbano está em uma situação tão ruim que muitas pessoas no Brasil estão indignadas com a situação. Conheço um grupo de 10 judeus libaneses que decidiram se registrar e votar pela primeira vez”, disse Makhlouf.

O libanês Lody Brais, um líder comunitário que ajudou a divulgar a campanha da embaixada, disse que cada vez mais jovens libaneses brasileiros manifestam seu desejo de se envolver com o Líbano e ajudá-lo a superar suas crises.

“O voto da diáspora pode ajudar a mudar a política libanesa. As pessoas perderam a confiança nos políticos”, acrescentou Brais, que ajudou a arrecadar alimentos e medicamentos para serem doados a Beirute após a explosão.

“Muitos descendentes que têm parentes lá enviaram dinheiro. Todos estavam preocupados com as vítimas”.

Na época, a advogada Hanna Mtanios Hanna Jr., cônsul honorária do Líbano na cidade brasileira de Goiânia, recebeu dezenas de ligações durante seu confinamento COVID-19 de pessoas que queriam fazer algo para ajudar Beirute.

“Os netos e bisnetos de imigrantes libaneses me ligavam dizendo que tinham uma ligação familiar com o país e queriam ajudar. Desde então, seus laços com o Líbano vêm crescendo”, disse ele.

A advogada Maggie Chidiac, de 58 anos, que tem família no Líbano, disse ao Arab News que é perceptível como as condições de vida no país diminuíram nos últimos anos.

“Enviamos comida e remédios para eles. Associações comunitárias e igrejas costumam coordenar as doações”, disse ela.

“As pessoas estão enfrentando desafios terríveis. Sabemos disso porque estamos sempre em contato com eles pela internet.”

A comunicação entre os libaneses e seus parentes brasileiros serviu para informar estes últimos sobre a política do Líbano, disse Chidiac.

“Seus relatórios e opiniões são muito importantes para nós porque nos ajudam a entender sua situação”, acrescentou.

Uma das instituições que coordenou a campanha de doações em 2020, a Câmara de Comércio Árabe Brasileira – conhecida pela sigla CCAB – não apenas financiou itens de saúde enviados pelo governo brasileiro a Beirute, mas também lançou campanhas de doação de dinheiro.

“O consulado libanês no Rio de Janeiro organizou um concerto de música em que músicos brasileiros tocaram com a orquestra de Beirute”, disse Mohamad Orra Mourad, vice-presidente de assuntos internacionais da CCAB.

“Foi televisionado e as pessoas puderam doar dinheiro para uma de nossas contas durante o show. Tudo foi enviado para a Cruz Vermelha Libanesa.”

Um avião brasileiro transportou 6 toneladas de alimentos, medicamentos e itens de saúde, incluindo ventiladores mecânicos.

A CCAB recebeu uma medalha do governo do Brasil em dezembro por seus esforços nessa campanha.

Mourad disse que a Embaixada Libanesa se reuniu com líderes empresariais libaneses-brasileiros em São Paulo e Rio de Janeiro no ano passado, e pediu-lhes para encontrar uma maneira de contribuir para a economia libanesa.

“Estamos organizando encontros informais e discutindo formas de atender a essa solicitação, que pode incluir um fundo de investimento, por exemplo”, disse Mourad.

A CCAB vai criar uma entidade legal que pode centralizar as doações para o Líbano e planeja lançar diversas iniciativas, incluindo um programa de capacitação de empresários do país. Mourad disse que também pretende conectar startups libanesas e brasileiras.

“Temos pressionado pela ratificação de um acordo comercial entre o Líbano e o Mercosul”, acrescentou, referindo-se ao bloco comercial sul-americano. Com a ratificação, “o intercâmbio comercial poderia aumentar rapidamente”.

Mourad acredita que, se mais libaneses brasileiros obtiverem a cidadania libanesa, eles se sentirão mais conectados ao país e poderão decidir investir nele.

“O interesse renovado entre os libaneses brasileiros certamente pode levar os empresários a investir no Líbano”, disse.

“Mas isso só acontecerá se o Líbano puder demonstrar que trabalhará para superar a instabilidade.”

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