Dois comícios, dois Brasil e uma eleição ainda incerta

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RIO DE JANEIRO/NOVA IGUAÇU – Os ralis foram separados por 24 horas, 30 milhas, e uma aparente diferença de entusiasmo entre as duas torcidas. Na semana passada, no Brasil, participei de eventos de campanha do presidente Jair Bolsonaro e do líder nas pesquisas, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, além de conhecer uma variedade de figuras da política, negócios e militares. Conclusão: esta eleição permanece imprevisível em muitos aspectos e pode já estar mais perto do que algumas pesquisas sugerem.

O evento de Bolsonaro, realizado na praia de Copacabana, no Rio de Janeiro, em 7 de setembro, foi o mais observado dos dois comícios, devido à preocupação de que o presidente use as comemorações dos 200 anos da independência do Brasil para encenar um novo ataque às suas instituições democráticas . No final, não houve golpe, mas houve espetáculo de sobra: o “Esquadrão da Fumaça” da Força Aérea realizou sobrevoos dramáticos em baixa altitude, arrastando as cores azul, amarelo e verde da bandeira brasileira, pára-quedistas saltaram de pára-quedas sobre a arena e o histórico Forte de Copacabana disparava um tiro de canhão a cada hora, emocionando a multidão. Oficiais militares insistiram pública e privadamente que nada disso pretendia ser uma demonstração partidária de apoio a Bolsonaro. Mas o público claramente acreditava no contrário, e isso pode ser significativo nas próximas semanas. “É tão bom!” elogiou Milton Garcia, um homem de 38 anos que trouxe seus filhos para o comício, vestido com camisetas da campanha “Deus, País, Família” combinando. “As Forças Armadas estão do lado do bem.”

Já escrevi em outro lugar que acho que Bolsonaro fará tudo o que estiver ao seu alcance para evitar dar a presidência a Lula, inclusive forçar uma crise institucional se ele perder a votação em outubro. O que mais me impressionou no comício, que passei cinco horas conversando com os apoiadores de Bolsonaro, foi a crença quase unânime de que “o golpe já começou”, e é o outro lado que está agindo de forma antidemocrática. Em sua opinião, Bolsonaro é vítima de uma conspiração das instituições “esquerdistas” do Brasil, particularmente o Supremo Tribunal Federal. “Não estamos do lado da Venezuela, nem do lado da Nicarágua”, Bolsonaro disse à multidão. “É o outro lado… que não respeita a Constituição.” O próximo passo potencial óbvio nesta narrativa: se a esquerda já sabotou a democracia, então qualquer coisa que Bolsonaro faça após a eleição é justificada, incluindo a recusa em reconhecer o resultado.

O autor entre os apoiadores de Bolsonaro no Rio em 7 de setembro.

Se chegará a isso permanece incerto. Praticamente em todos os lugares que fui, ouvi otimismo sobre a economia. Vendedores, banqueiros, empregados domésticos e, sim, até algumas pessoas no comício de Lula, disseram que as coisas pareciam estar indo na direção certa. Com certeza, ainda há miséria inaceitável no Brasil, herança de uma década de estagnação econômica e, mais recentemente, da pandemia. a fome é estima-se que afete 33 milhões de brasileiros, e a falta de moradia é altamente visível nas grandes cidades. Mas agora o PIB deve crescer 2,5% em 2022, muito melhor do que 0,3% previsão média No início do ano. A inflação, à qual os eleitores brasileiros são historicamente muito sensíveis, caiu novamente abaixo de 10%enquanto o desemprego está nível mais baixo desde 2015. Isso não é um milagre: Bolsonaro inundou a economia com estímulos e subsídios, ao custo de um provável crescimento futuro. Mas esse é um jogo de ano eleitoral que Lula e seu Partido dos Trabalhadores (PT) costumavam jogar também, e é uma das razões pelas quais um presidente em exercício nunca perdeu uma eleição no Brasil.

Muitas pesquisas sugerem que Bolsonaro está, de fato, diminuindo lentamente a lacuna, embora permaneça seis a quinze pontos percentuais atrás de Lula, pois o primeiro turno de votação em 2 de outubro se aproxima rapidamente (um segundo turno, se necessário, ocorreria em 30 de outubro). As grandes pesquisas têm um histórico muito bom no Brasil. Então fiquei surpreso ao ouvir pessoas sérias levantarem dúvidas desta vez. Um executivo de uma empresa de pesquisa me disse que acha que a margem pode ser apenas metade do que a pesquisa de sua própria empresa mostra, em parte devido ao bolsonaristas escondendo suas verdadeiras intenções de instituições que acreditam serem tendenciosas. Outro problema: não há censo no Brasil desde 2010 devido à pandemia. Isso significa que para dois grupos demográficos críticos, aqueles que ganham menos de dois salários mínimos mensais (base de Lula) e cristãos evangélicos (base de Bolsonaro), os pesquisadores estão essencialmente voando às cegas ao pesar sua importância na amostra global. As pesquisas no início deste ano no recente plebiscito constitucional do Chile e no segundo turno presidencial da Colômbia foram imprecisas, possivelmente por razões semelhantes.

Enquanto isso, resta-nos confiar em nossos olhos e ouvidos. O que me leva ao comício de Lula. Aconteceu às margens de uma rodovia em Nova Iguaçu, subúrbio industrial operário do Rio. Participei de provavelmente duas dúzias de comícios de campanha do PT ao longo dos anos como repórter e colunista, desde 2006. Este me pareceu o menos enérgico e o mais tenso. Alguns da multidão foram revistados ao entrar e cercados por altas barricadas de metal. As pessoas no palco eram em sua maioria os mesmos dirigentes petistas dos anos 2010 e até dos anos 2000: Aloízio Mercadante, Benedita da Silva, Gleisi Hoffman… , fez uma aparição. Lula falou bem, como quase sempre faz. Mas a multidão parecia estranhamente muda, como se estivesse assistindo a um programa de televisão que já tinha visto antes. O que, é claro, muitos deles tinham.

Isso importa? Não tenho certeza. Grande parte da base da classe trabalhadora de Lula está ocupada demais para participar de um comício às 17h de uma quinta-feira. O Rio sempre foi território desafiador para o PT. Se Bolsonaro deu uma festa mais divertida e mais concorrida, bem, ele o fez em um feriado federal, na praia de cartão postal do Brasil, com todo o poder orçamentário das Forças Armadas atrás dele. E como muitas vezes acontece no Brasil hoje, há um possível paralelo com os Estados Unidos. Ao longo da campanha de 2020, foi Donald Trump quem teve de longe os maiores e mais espetaculares comícios de campanha, enquanto Joe Biden era famoso por “escondido em seu porão.” Mas Biden venceu de qualquer maneira, já que os eleitores escolheram o candidato desinteressante, mas familiar, que representava um certo retorno à normalidade. A maioria dos apoiadores de Trump simplesmente não conseguia acreditar no resultado e muitos se recusaram a aceitá-lo. Em breve saberemos se essa história também se repete.

Este artigo foi atualizado para fornecer um panorama mais completo da economia brasileira, incluindo uma estimativa de pessoas afetadas pela fome.

SOBRE O AUTOR

Brian Winter é editor-chefe da Trimestral das Américas e vice-presidente de políticas da Americas Society/Council of the Americas. Autor de best-sellers, analista e palestrante, Brian vive e respira a política latino-americana nos últimos 20 anos.

Tag: Eleições 2022, Jair Bolsonaro, Luiz Inácio Lula da Silva

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As opiniões expressas neste artigo não refletem necessariamente as de Trimestral das Américas ou seus editores.

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