Elis Regina revela álbum ao vivo

A trajetória da música popular brasileira na segunda metade do século XX pode ser dividida em duas grandes correntes que se sobrepõem. Desde o final dos anos 1950, a bossa nova tornou-se o gênero dominante, liderado por artistas como joao gilberto e Nara Leon. Mas a partir de meados dos anos 60, um novo gênero de artistas surgiu em busca de uma sonoridade mais eclética e extrovertida. Sob a bandeira da MPB (Música Popular Brasileira), músicos como milton nascimentoChico Buarque e Edu Lobo fundiram bossa nova, rock, samba, jazz e música folclórica regional em um gênero expansivo próprio.

O nascimento da MPB costuma ser localizado em uma apresentação ao vivo em 1965 em um concurso de música da TV Excelsior. Os vencedores desse concurso foram o cantor e compositor Edu Lobo e uma jovem e expressiva cantora chamada Elis Regina. Mas muito depois de sua ascensão à fama nos anos 60, Regina demonstraria mais uma vez o poder de suas apresentações ao vivo em um impressionante álbum ao vivo de 1978 chamado Transversal Do Tempo.

Ouça Elis Regina Transversal Do Tempo agora.

A gravação começa com duas baladas emocionantes. “Fascinação”, escrita originalmente pelo compositor italiano Fermo Dante Marchetti, mostra a capacidade de Regina tanto para passagens suaves e delicadas quanto para poderosos crescendos operísticos. A sequência “Sinal Fechado” pode ser o destaque do álbum, uma interpretação assombrosa e melancólica da composição de Paulinho da Viola. A letra detalha dois amigos que se encontram por acaso em um semáforo e prometem se encontrar no futuro. Escrita no auge da ditadura brasileira, a canção de da Viola refletia a alienação da época. A performance de Regina mantém a sensação assustadora, mas adiciona um tom romântico. O pianista Crispin Del Cistia merece crédito aqui, acompanhando a voz de Regina com uma sensibilidade incrível.

Após essa queda inicial na melancolia, emergimos abruptamente em uma espécie de rock progressivo funky com “Deus Lhe Pague”. É uma escuta explosiva e surpreendentemente pesada, Regina aproveitando alguma agressão cáustica no palco. É irônico que Regina fosse supostamente uma perfeccionista; aqui, ela é refrescantemente crua. Depois do pop balada e do rock progressivo, seguimos para os ritmos de bossa-nova de “O Rancho Da Goiabada”. No entanto, esses tons familiares logo se dissolvem em uma desajeitada discórdia antes de finalmente emergirem em um breve final de jazz-funk. Regina nos dá um passeio sem remorsos pelas variadas influências da MPB.

Outro destaque vem com uma mistura de “Meio Termo” e “Corpos”. Começamos com os tons suaves da composição de Lourenço Baeta antes de passar para uma versão rock progressivo de “Corpos” de Ivan Lins. Quanto mais se aproxima, “Cartomante” diverge para um território mais pop, terminando o show com uma energia para agradar ao público.

Vale a pena mergulhar em todo o catálogo de Elis Regina, mas Transversal Do Tempo é talvez a melhor exibição de sua habilidade como artista. E, dado seu lançamento próximo ao final do apogeu da MPB, Cruz serve como um poderoso adeus a uma era de exuberante ecletismo.

Ouça Elis Regina Transversal Do Tempo agora.

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