Enquanto a Amazônia queima, apenas o clima pode evitar uma catástrofe, dizem especialistas

  • A Amazônia brasileira registrou o maior número de incêndios no mês de junho em 15 anos, com 2.562 grandes focos detectados, um aumento de 11,14% em relação a 2021.
  • A primeira metade do ano registrou 7.533 grandes incêndios, o maior desde 2019, segundo dados do Instituto Nacional de Pesquisa Espacial.
  • Em 23 de junho, o governo brasileiro emitiu um decreto que proíbe o uso de queimadas para manejar florestas em todo o país pelos próximos 120 dias.
  • Especialistas dizem estar céticos em relação a essa proibição, observando que medidas semelhantes falharam em parar as queimadas em anos anteriores e dizem que o clima é a única coisa que pode ajudar a conter o aumento dos incêndios à medida que a estação seca se desenrola.

Fumaça de incêndios em partes da Amazônia brasileira está se aproximando das cidades. Combinando o maior número de incêndios florestais em 15 anos e a maior taxa de desmatamento já registrada no mês de junho, a estação seca deste ano começa acirrada, levantando preocupações sobre seu pico nos próximos meses. Com a má aplicação das leis ambientais, o subfinanciamento das brigadas de combate a incêndios e uma sensação generalizada de impunidade para os responsáveis ​​pelo corte e queima, os pesquisadores dizem que o clima é a única chance de parar os incêndios.

Houve 2.562 grandes incêndios detectados em junho passado, o maior para qualquer junho desde 2007, e um aumento de 11,14% em relação ao mesmo mês de 2021, segundo dados compilados pelo INPE, o instituto nacional de pesquisas espaciais. No primeiro semestre do ano, foram detectados 7.533 grandes incêndios na floresta tropical, o maior desde 2019, quando foram registrados 10.606 grandes incêndios, segundo dados do INPE.

No entanto, este é apenas o início da estação seca na Amazônia, disse Alberto Setzer, pesquisador do Corpo de Bombeiros do Inpe. Em uma videochamada com o Mongabay, ele comparou os dados atualmente disponíveis aos momentos iniciais de uma partida de futebol, quando é difícil prever o resultado, pois a maior parte da queima ainda não ocorreu. A estação seca, também conhecida como estação do fogo, geralmente atinge o pico em agosto e setembro.

“É como se estivéssemos em um jogo de futebol que começou com cinco minutos muito agitados, mas o que está por vir é imprevisível”, disse Setzer. Ele observou que o uso do fogo para limpar a terra é ilegal no Brasil; fazê-lo legalmente requer uma permissão especial que “quase ninguém consegue”, acrescentou.

Diante do aumento dos incêndios florestais e da pressão internacional, o presidente Jair Bolsonaro emitiu um decreto em 23 de junho proibir o uso do fogo para manejar a vegetação em todo o país pelos próximos 120 dias. O decreto presidencial permite várias exceções: o uso do fogo para combater incêndios maiores; na agricultura de subsistência das populações indígenas e tradicionais; em investigações que tenham a devida autorização; em aplicações fitossanitárias; e em agroindústrias essenciais que não estão localizadas nos biomas Amazônia ou Pantanal.

No entanto, os especialistas receberam o decreto com ceticismo e apontaram que medidas semelhantes foram implementadas em anos anteriores, sem sucesso. “Vejo este decreto como uma atitude apenas para se exibir”, disse Ane Alencar, diretora científica do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM), à Mongabay em uma entrevista em vídeo. “As pessoas não vão adotar um decreto porque estará fora da lei se a lei não for aplicada.”

Ele observou “um sentimento geral e fortalecido de impunidade, com o desmantelamento do aparato de controle”.

“A sensação de falta de governança na Amazônia é sentida e muito alta”, disse Alencar, que também coordena a cooperativa de mapeamento MapBiomas, que monitora o uso da terra no país.

O monitoramento anual da Amazônia pelo Greenpeace mostra um aumento do desmatamento e das queimadas. Em 2021, a ONG sobrevoou os estados do Amazonas, Rondônia, Mato Grosso e Pará. Imagem © Christian Braga/Greenpeace.

Ao contrário das florestas temperadas do oeste dos EUA ou dos campos do Cerrado mais próximos, o fogo não é um fenômeno natural na Amazônia, a maior floresta tropical do mundo, disse Rômulo Batista, porta-voz do Greenpeace Brasil para a Amazônia.

“O fogo natural na Amazônia é muito raro. Então, sendo muito raro, sempre é preciso alguém ou algo para acender um fósforo ou acender o fogo”, disse Batista à Mongabay em uma entrevista em vídeo.

Uma razão comum para o uso do fogo é preparar novas pastagens, limpando áreas de vegetação empobrecida com um fogo de superfície que não atinge as raízes, permitindo o rápido crescimento da grama. O principal problema, disse Batista, é que essa prática ocorre principalmente em áreas onde a mata do entorno também está degradada e, portanto, pode pegar fogo com facilidade.

O fogo também é usado como a etapa final do processo de desmatamento, onde qualquer vegetação remanescente é queimada após a remoção das árvores mais valiosas. Também é usado para esconder vestígios de desmatamento recente, disse Batista.

Outro motivo, cujo uso vem crescendo recentemente, segundo Batista, é o uso do fogo como principal ferramenta para o próprio desmatamento. A mesma área é incendiada repetidamente para queimar toda a vegetação, disse ele.

Incêndio florestal em área desmatada.
Incêndio florestal em área desmatada em terreno público na cidade de Porto Velho, no estado amazônico de Rondônia. Imagem © Christian Braga/Greenpeace.

“Sempre gostei de entender as queimadas na Amazônia como o outro lado da mesma moeda do desmatamento”, disse Batista. Embora a prática do uso do fogo para limpar as lavouras remanescentes seja menos realizada, já que o plantio direto no Brasil se mostrou mais viável economicamente, acrescentou, ainda é amplamente utilizado para limpar a terra para pastagens.

As queimadas, juntamente com o desmatamento, são uma ferramenta comum de apropriação de terras, disse Alencar, do IPAM. Dados do INPE mostram que o estado do Amazonas teve as maiores taxas mensais de desmatamento de janeiro a junho deste ano pela primeira vez na história, traduzindo-se em 1.236 quilômetros quadrados (477 milhas quadradas) de floresta queimada. Alencar disse que essa nova tendência está sendo liderada por grileiros, já que o estado abriga grandes extensões de terras públicas.

Depois de desmatar uma área, os invasores queimam a vegetação remanescente para apagar qualquer vestígio de que já existiu uma floresta ali, depois trazem gado para demonstrar o valor comercial da terra e a partir daí tentam legalizar sua reivindicação de posse da terra, Batista disse. .

Em termos de queimadas, o estado mais afetado até agora neste ano foi Mato Grosso, com 7.414 grandes queimadas de janeiro a início de julho, um aumento de 21% em relação ao mesmo período do ano passado, e o maior número de queimadas no estado desde 2007 , segundo dados do INPE. O estado é o coração da pecuária brasileira, o que explica o uso do fogo para criar pastagens, dizem os especialistas.

Área desmatada e queimada.
Área desmatada e queimada que já está sendo utilizada para pecuária na cidade de Porto Velho, no norte do estado de Rondônia. Imagem © Christian Braga/Greenpeace.

Os pesquisadores agora estão de olho nas condições que podem afetar o desenvolvimento dos incêndios florestais ao longo da estação seca. Setzer, do Inpe, disse que a tendência das queimadas na Amazônia dependerá principalmente de três fatores. O primeiro é o clima: se chover mais do que a média da estação, usar o fogo para limpar a terra desmatada se torna ineficiente, disse ele.

O segundo fator é a aplicação da lei, disse Setzer. “O uso do fogo é ilegal. Todos esses casos que a gente vê mostram infrações, crimes ambientais, e isso depende de como as autoridades atuam em termos de quantidade de fiscalizações, de multas. Isso também tem impacto. Quando a fiscalização é muito intensa, o uso do fogo é reduzido”, disse.

Outro fator é a economia, acrescentou. Os mercados ativos tendem a aumentar os preços da terra e a necessidade de novas fronteiras para pastagens de gado e plantações de soja, o que, por sua vez, pode levar a mais desmatamento e queimadas, disse Setzer.

Quanto ao clima, a previsão para julho-setembro mostra um quadro misto. Centro de Previsão do Tempo e Estudos Climáticos do INPE, CPTEC, mostra que as regiões norte e nordeste do Brasil, onde está localizada a maior parte da Amazônia brasileira, devem continuar recebendo grandes quantidades de chuvas, associadas ao fenômeno La Niña. O centro do país e as regiões sul e sudeste devem ter chuvas abaixo da média histórica.

“Vamos torcer, para ver se o tempo nos ajuda a não quebrar novos recordes [of forest fires]disse Alencar. A pesquisadora disse que está tentando esperar menos incêndios, mesmo que o tempo esteja menos chuvoso do que a média dos anos anteriores, o que é o oposto do que está acontecendo agora.

No entanto, Alencar disse temer que as eleições presidenciais de outubro possam prejudicar os esforços de prevenção de incêndios. “Se antes não havia um aparato estatal atento e coibindo as atividades ilegais em relação ao desmatamento e queimadas, agora durante as eleições… isso não é mais uma prioridade.”

Incêndio florestal no norte do estado do Amazonas.
O monitoramento de desmatamento e queimadas do Greenpeace encontrou uma fonte de calor no município de Lábrea, localizado no norte do estado do Amazonas, que liderou pela primeira vez o ranking de desmatamento do país de janeiro a junho de 2022. Imagem © Christian Braga /Greenpeace.

Apesar de todos os desafios, disse Batista, não faz sentido queimar a floresta com maior biodiversidade do mundo para produzir carne e soja. “Seremos responsáveis ​​perante as gerações futuras se continuarmos com este modo de produção que é característico da economia de destruição que nos trouxe até aqui.”

Você está correto sobre o uso de “culturas” aqui, quero dizer renovação do gramado. Eles diferenciam queimadas para queimar grama, que são rasas e rápidas, permitindo que a grama volte a crescer rapidamente, das queimadas usadas para desmatamento. No primeiro caso, a área já foi desmatada. Parte do motivo do uso da “renovação” da grama é que as queimadas ajudam a fertilizar o solo, pois a vegetação da região é muito rica, mas podemos mudar isso porque acho que não vale a pena explicar tudo isso.

Imagem do banner: Incêndio na Reserva Extrativista Jaci-Paraná, em Porto Velho, Rondônia, em 2020. Imagem © Christian Braga / Greenpeace.

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