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Folhapress

Em um novo livro, Giannetti reflete sobre a ética e seus extremos e nuances

FOLHAPRESS – O que você faria se pudesse ser invisível? É em torno desse simples questionamento que o economista Eduardo Giannetti desenvolve uma elaborada reflexão sobre a ética, tema de seu último livro, “O Anel de Giges”, que chega às livrarias nesta segunda-feira (16). O objeto que dá nome à obra vem da “República” de Platão. Como provocação a Sócrates, defensor da ideia de que ser justo é um bem em si, ou seja, independentemente das vantagens que o comportamento traga, Gláucon, irmão mais velho de Platão, conta a história de Gyges. Na fábula, um camponês (Gyges) descobre um anel capaz de torná-lo invisível. De posse do objeto, ele vai até a sede do reino da Lídia, região onde morava, seduz a rainha, mata o rei e toma posse do trono. Para Gláucon, portanto, a história mostraria que um cidadão pacífico, protegido do olhar alheio e do risco de punição, não hesita em obter vantagens para si, violando destemidamente preceitos éticos e morais que até então – hipocritamente – respeitava. Além do mais, não há possibilidade de agir de outra forma, defende Gláucon, que vê a busca incessante pelo interesse próprio e pela felicidade como equivalentes entre si. Nessa perspectiva, dada a garantia da impunidade, não há razão para respeitar as regras sociais que se interpõem entre o sujeito e o benefício almejado. Em resposta, Sócrates argumenta que uma pessoa verdadeiramente ética não mudaria seu comportamento na posse do anel de forma alguma, já que ser honesto e justo é igual a felicidade. Como observa Giannetti, há, portanto, um debate entre a ética como valor instrumental (meio de realização, usado na medida em que é compatível com o próprio interesse do indivíduo e descartado quando deixa de sê-lo, como defende Gláucon). e como um valor intrínseco (um bem em si mesmo, como diz Sócrates). No pensamento de Platão, o ideal de Gyges, um modelo de comportamento a ser seguido pelos guardiões de sua sociedade utópica, é aquele para quem a posse do anel importa pouco. Isso porque ele não gosta dos aplausos dos outros e é orientado apenas a fazer o que é certo e justo (tendo sido moldado pela educação recebida desde a infância). Em um dos pontos mais interessantes do livro, Giannetti aborda a ética platônica e cristã. Como os Gyges platônicos, o ideal cristão de Gyges é guiado pela abnegação: não há espaço para interesses egoístas, mas uma vontade genuína da alma de respeitar a lei moral. Ela é sua felicidade. Uma vez apresentadas as concepções, o autor passa a criticá-las. “O fulcro da ética platônico-cristã é a reconfiguração do campo de força intrapsíquica subordinando os impulsos, fantasias e inclinações espontâneas da psique – o mundo do gueto da alma – ao primado de uma vontade ordenadora e à soberania do bem.” Irreal, inviável, indesejável. Alguém que reprime suas paixões a tal ponto que não é afetado pela posse do anel não é desejável, de qualquer maneira. Em algum momento, essa barragem vai quebrar. No outro extremo, o inescrupuloso Gyges da fábula de Platão também não é uma visão realista do comportamento humano. A questão colocada por Giannetti é: existem apenas essas duas possibilidades? Não são extremos raros no mundo empírico, tipos ideais que obscurecem tudo o que realmente encontramos entre um ponto e outro? Pensando nisso, o autor busca um dos clichês em termos de teste de honestidade: a carteira perdida. Um extenso estudo publicado na revista Science em 2019 simulou a perda do objeto, com e sem dinheiro, em vários países. Junto com a carteira havia um cartão com um endereço de e-mail (para permitir uma tentativa de devolução) e uma lista de compras. O valor contido nos que pegaram dinheiro foi de US $ 13,45 (ajustado país a país pela paridade do poder de compra). Contra as apostas dos economistas, a taxa de retorno das carteiras foi maior entre aqueles com dinheiro do que entre os vazios, em todos os países pesquisados. O resultado contraditório é atribuído pelos autores a fatores econômicos (a vantagem econômica e o custo de procurar o dono da carteira) e psicológicos (altruísmo e não querer se sentir ladrão). Ou seja, existe toda uma gradação ética possível, pautada não apenas por uma lógica racional egoísta, mas também por elementos subjetivos, como a autoimagem e a empatia. Giannetti estava certo ao apontar a importância do afeto para a satisfação humana (em mais um clichê: “a felicidade só é real quando é compartilhada”). A discussão que toca o livro, mas não avança, é o impacto dos fatores culturais nessa dispersão. Como mostra a experiência, a taxa de retorno de carteiras cheias e vazias variava muito de país para país. Outro exemplo citado no livro, sobre diplomatas e multas de trânsito, convida a uma análise semelhante, mas é ignorado. Os impulsos, paixões, afetos e empatias que Giannetti destaca corretamente são universais e, portanto, não explicam as diferenças culturais em termos de ética observada. Essa lacuna de análise é sentida quando tentamos preencher a lacuna entre a reflexão ética individual e coletiva, pensando em como o conjunto diversificado de tantos Gigs possíveis explica sociedades mais ou menos justas e desiguais.

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About the Author: Gabriela Cerqueira Corrêa

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