FHC teme que as Forças Armadas tenham “gosto pelo poder” – 12/05/2020

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Antonio Torres del Cerro, São Paulo, 12 de maio (EFE) .- O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso expressa sua preocupação com a possibilidade de as Forças Armadas se apoderarem do poder em um governo com cada vez mais militares e ver o país uma cena política com o Poder Legislativo e o Poder Judiciário tentando preencher as lacunas deixadas por um Executivo que, segundo ele, é “surpreendente” e “sem uma direção definida”.

“Existem muitos (militares no poder) e mais e mais. E essa é uma fraqueza política do governo”, disse FHC, 88 anos, em entrevista à Agência Efe por videoconferência em sua residência em São Paulo.

“Não podemos permitir agressões contra a Suprema Corte, contra o Congresso, que vão contra a democracia”, acrescentou.

Em entrevista à Efe, o ex-presidente também opinou que Sergio Moro não deveria ter deixado a magistratura e assumido o portfólio de Justiça no governo.

“Acho que ele errou ao aceitar ser ministro. Não porque ele é ministro de Bolsonaro, mas porque mudou o escopo da Justiça, em que serviu a vida inteira, para o Executivo, e estava em uma situação delicada, porque não era um ministro. o homem predispõe a essas funções (políticas) “, afirmou.

Assista à entrevista:

Agência Efe: Ele até solicitou a demissão de Bolsonaro nas redes sociais. Você mantém essa posição?

Fernando Henrique Cardoso: Na política doméstica, sou duro com ele. Não porque eu não goste ou porque não seja o meu estilo, mas porque exagere. Não podemos permitir ataques contra a Suprema Corte, contra o Congresso, que vão contra a democracia. E ter casos em que o presidente participe desses ataques é sério. Aqueles com força política precisam se manifestar em defesa da democracia. Nesse momento, quando você percebe que o executivo é incrível e não tem um curso definido, o que acontece? Os outros órgãos constitucionais, a Suprema Corte, os Parlamentos, estão começando a preencher o vácuo de poder, e isso é perigoso.

Efe: Bolsonaro é desaconselhado, ele recebe influência negativa de seus filhos? O que acontece com o governo?

FHC: Eu não estou lá, nem o conheço. Bolsonaro era deputado, eu era senador, ministro, presidente. Eu nunca vi isso. Ele queria me matar uma vez (disse), queria me matar (referindo-se a uma declaração de Bolsonaro no final dos anos 90), porque me acusou de ser neoliberal. Eu não o conheço nem conheço a família dele. Para os presidentes, sempre existe o risco de a família começar a ter muitas opiniões. As pessoas escolheram o presidente, não a família dele. Deixe a família calar a boca. No caso dele (Bolsonaro), é mais complicado, porque os três filhos mais velhos têm mandato político próprio (Flávio é senador, Carlos é vereador no Rio de Janeiro e Eduardo, deputado federal).

É importante olhar para o que está acontecendo nos Estados Unidos. Trump incentiva a posição “America First”, e isso leva a uma atitude isolacionista. Se o Brasil tem uma grande vantagem neste mundo confuso, é porque está longe da China e dos Estados Unidos. Nós podemos exportar ambos. A China é o cliente número 1 e os Estados Unidos são o número 2, e não há razão para o Brasil se alinhar com um dos dois pólos, se eles são pólos.

Sobre a ideologia propagada por (ex-estrategista de campanha de Trump, Steve) Bannon, nos EUA Nos EUA, aqui (no Brasil) há um cavalheiro de quem nunca ouvi falar (o filósofo Olavo de Carvalho) e que se espalha amplamente, e não é culturalmente importante, mas politicamente importante, porque inspira ações da família presidencial. Portanto, há um movimento nessa direção, que eu acho perigoso.

Alguém mencionou que o Brasil se pareceria com a Itália entre as guerras de Mussolini. Mas Mussolini era uma pessoa muito culta em comparação com a atual aqui (Bolsonaro). Não tem nada a ver com Mussolini, o que acontece aqui é que não existe uma visão ideológica organizada, existe um impulso instintivo que considera algumas coisas como um mundo “globalista”, que existe um “marxismo globalista”. Não tenho ideia do que é, e as pessoas entendem isso como verdade. A situação é realmente preocupante, mas tem legitimidade, porque foi escolhida pelo voto popular.

Efe: Que leitura você faz da ala militar do governo?

FHC: Os militares aprenderam com o que aconteceu no passado. Eles sabem que devem respeitar a Constituição e, que eu saiba, essa é a posição oficial das Forças Armadas. Agora, cada governo que começa a ser fraco, na falta de força, nomeia militares. Lembro-me de (Salvador) Allende, no Chile, quando ele começou a nomear militares. Aqui também, quando os governos não são fortes, eles dependem das Forças Armadas, e acho que isso representa um risco para as Forças Armadas, porque elas gostam de poder.

No entanto, isso ainda não aconteceu aqui, mas pode acontecer, porque há muitos (no poder) e mais e mais. E isso é uma fraqueza política do governo, não uma força. Sob a condição de que a força regular permaneça em uma posição pró-constitucional, nada acontece. Mas se as Forças Armadas, independentemente do que acontece, se colocam em posição de apoiar o presidente incondicionalmente, isso é sério e a unidade democrática morre. Não acredito que estamos nesse processo e não acredito que essa seja a opinião das pessoas ativas nas Forças Armadas.

Meu pai era general e meu avô era marechal. Eu tenho um conhecimento quase empático das forças armadas. No passado, eles eram mais políticos, depois se tornaram profissionais. Há um problema que qualquer oficial militar, após um certo ponto, não aceita: desordem. Então eles tentam colocar ordem, e isso é perigoso. Pode acontecer? A pandemia está servindo como vacina para manifestações de rua. Acho que políticos, profissionais e jornalistas têm a responsabilidade de alertar o país para que não cheguemos a um ponto de desordem, porque então os militares chegam, e eu não quero isso. É ruim para o país e para eles, quem será o responsável pelo que acontece.

Efe: Como você analisa as partidas do governo de Sergio Moro (ex-ministro da Justiça) e Luiz Henrique Mandetta (ex-ministro da Saúde)?

FHC: Eu já vi Sergio Moro duas vezes na minha vida. Eu acho que ele estava errado ao aceitar ser ministro. Não porque ele é ministro de Bolsonaro, mas porque mudou o escopo da Justiça, no qual trabalhou toda a vida, para o Executivo, e estava em uma situação delicada, porque não era um homem predisposto a essas funções (políticas).

E qual foi a conseqüência imediata de uma saída como a do Ministro da Saúde (Mandetta)? Na minha opinião, uma saída louca e irracional. O prestígio do presidente está em declínio. Muitos o apóiam, mas não a maioria. (Saindo) Mandetta não teve tanto efeito, mas Moro era o principal.

E o outro pilar, o ministro da Economia (Paulo Guedes), conceituado pelos empresários, tem um projeto que não pode mais ser aplicado. Ele tem uma visão que certamente estava correta no passado (ajuste dos gastos públicos), necessária, mas com a pandemia, a visão é gastar mais e aumentar a dívida pública.

Efe: Como você avalia a luta contra o Covid-19 no Brasil, onde o presidente não segue rigorosamente as recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS)?

FHC: O pior é que chegou às áreas mais populares. Para mim, nada muda, mas quando uma pessoa mora nos arredores de São Paulo, na miséria, em um bairro pobre, com muitas pessoas em casa, sem consolo … as pessoas têm que sair (… ) Mesmo que haja recomendações da OMS para ficar em casa, para as pessoas mais pobres é uma punição, porque é impossível. Além disso, há uma falta de liderança. Às vezes o presidente (Bolsonaro) fica com outras pessoas na rua sem usar máscara, como se nada tivesse acontecido (…) É notável que a falta de coordenação seja prejudicial, apesar do Brasil ter a vantagem de Sistema de saúde livre e universal.

Efe: alguns políticos, incluindo advogados, consideram que Bolsonaro está sendo processado na Corte Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) por não seguir as recomendações da OMS. Você considera isso plausível?

FHC: Não vejo muito o que fazer (CIDH), outras oportunidades foram perdidas quando houve violência, tortura … O atual presidente tem essa visão de amigos e inimigos, que não ajuda no que é necessário agora, que existe. mais coesão para combater um inimigo comum (coronavírus). É um fracasso político sério, mas não acho que seja resolvido com impeachment, por enquanto. Vai depender de como o presidente age. Estou muito preocupado com o que virá depois da pandemia (…) Haverá muitas pessoas desempregadas.

Por outro lado, sinto que não há pressão militar pela queda do presidente. Felizmente, os militares sempre respeitaram a Constituição. Não podemos nos distanciar da estrutura constitucional, pois isso seria muito perigoso para as instituições e para a liberdade. Não há inimigos da liberdade, a imprensa é livre, a justiça funciona e não há sentimento de que eu vivi em outros tempos (alusão à ditadura).

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