Google perde 45 minutos e expõe dependência de seus serviços – Link

Episódio fortalece o debate regulatório das grandes empresas de tecnologia, dizem especialistas

Aluna do segundo ano do ensino médio, Anna Júlia de Lima Cabral teve um compromisso decisivo às 9 da manhã de segunda-feira 14: enfrentar uma prova online de recuperação de história em que precisaria de 7 para passar no curso. Para sua apreensão, a avaliação não ocorreu porque o Google onde o teste seria realizado estava abaixo. No entanto, ela não estava sozinha.

O estudante de Natal (RN) sofreu junto com milhares de outros usuários dos serviços do Google. A partir da manhã de segunda-feira, praticamente todos os serviços da plataforma passou cerca de 45 minutos lá embaixo em diferentes países do mundo. Foi o suficiente para muitas pessoas perceberem o tamanho de sua ‘dependência do Google’.

O problema começou às 8h47. Os usuários começaram a relatar em suas redes sociais que Gmail, Drive, YouTube, Meet, Calendar, Play Store e outros serviços da empresa estavam fora do ar; aparentemente, apenas o mecanismo de busca saiu ileso. As notificações vieram de diversos países: Índia, África do Sul, Europa e até Estados Unidos, onde o problema ocorreu antes das 7 da manhã. Por volta das 9h30 (horário de Brasília), os serviços começaram a retornar lentamente.

Aproximadamente quatro horas e meia depois, o Google forneceu uma explicação para a falha, eliminando os temores iniciais de que um mega ataque cibernético tivesse sido a causa. “O Google sofreu uma falha em seu sistema de autenticação devido a um problema de gerenciamento de cota de armazenamento interno. Os serviços que exigem login do usuário apresentaram altas taxas de erros nesse período ”, diz parte da nota da empresa.

Ou seja, o mecanismo de nome de usuário e senha sofreu um problema: a gestão do espaço dedicado ao login do usuário dentro da infraestrutura do Google falhou, causando a desativação do sistema. A maioria dos serviços do Google exige um nome de usuário e uma senha, o que explica o bloqueio generalizado. A empresa diz que continua investigando o problema para que ele não aconteça novamente.

“Meu desespero era grande. Não sabia se devia falar com a coordenadora da escola ou com a minha mãe ”, conta Anna. Ela preferia o caminho da coordenação, mas muitos outros alunos, todos na educação a distância devido à pandemia do coronavírus, recorreram aos pais.

“Começamos a receber ligações de pais tentando entender por que seus filhos não conseguiam se conectar”, explica Sueli Cain, diretora geral da escola Mater Dei, em São Paulo. Antes mesmo da pandemia, a universidade já tinha sua plataforma de ensino integrada à do Google. Foram afetados 241 alunos entre 5 e 17 anos: 61 deles (entre 11 e 17 anos) estavam iniciando a segunda semana de atividades de recuperação. Os outros 180 (5 a 10 anos) estavam em classes normais.

“Enviamos mensagem aos pais pelo app interno da escola contando sobre o problema e retomamos as atividades às 9h55”, explica.

Funcionários do Google recorreram ao WhatsApp

Na última edição publicada, o Gmail tinha 1,5 bilhão de contas, o que tem um efeito claro também no mundo dos negócios: o problema afetou pequenas e grandes empresas. Incapazes de realizar reuniões, acessar planilhas e enviar e-mails, muitos voltaram seus esforços para serviços semelhantes ou plataformas não pertencentes ao Google. OU Status descobriram que os próprios funcionários do Google no Brasil tiveram que recorrer a Whatsapp, que pertence a Facebook, para trabalhar.

“Minhas reuniões matinais foram adiadas e só retomadas às 11 da manhã”, explica a designer Aline Arielo, 35, que trabalha em uma empresa de desenvolvimento de sistemas e aplicações com mil funcionários em Campinas (SP). Fora do Brasil, também há relatos de usuários que fizeram automação residencial em suas casas usando a plataforma Google Home e acabaram com lâmpadas e termostatos desligados.

É difícil estimar a magnitude dos danos que a queda de 45 minutos do Google pode causar, mas o Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec) afirma que se o consumidor se sentir ferido ou sofrer alguma perda objetiva, pode encaminhar a reclamação à empresa. e recorrer ao Procon e à Justiça. “Não é porque o serviço aparentemente é gratuito que a empresa não tem que ressarcir os danos causados”, explica Diogo Moyses, coordenador do programa Telecom e Direitos Digitais do Idec.

Muito poder

Para os especialistas, porém, o problema vai além dos danos causados ​​por esse episódio. Na verdade, isso indica como estamos cada vez mais dependentes de algumas empresas. “O Google conseguiu criar uma verdadeira ‘infraestrutura computacional’ em nossas vidas”, explica Diogo Cortiz, professor da PUC-SP. Para ele, estamos tão envolvidos com esses serviços que é difícil não ficar muito dependente deles.

“Acho que esse caso servirá como mais um ponto a favor dos debates regulatórios sobre grandes empresas de tecnologia”, explica Vivaldo José Breternitz, professor da Faculdade de Informática e Computação da Universidade Presbiteriana Mackenzie. Grandes empresas como Amazon, Google, Facebook, Apple e Microsoft estão sendo criticadas por reguladores dos Estados Unidos e da Europa: na semana passada, o governo dos Estados Unidos, junto com 48 procuradores-gerais de todo o país, processou o Facebook e solicitou a revogação de compras no Instagram e WhatsApp. Em outubro, o próprio Google, em um caso histórico, foi acusado pelo Departamento de Justiça (DoJ) de Pratique o monopólio com seu mecanismo de pesquisa.

Enquanto o debate regulatório decorre dos poderes econômicos e políticos dessas empresas, Breternitz lembra que a quebra do Google também reforça a dependência técnica que milhões de pessoas têm dessas empresas. “Se a infraestrutura de um desses gigantes falhar, muitas pessoas e muitas empresas serão afetadas”, afirma.

Por outro lado, houve quem aprovasse essa dependência. A prova de história de Anna Júlia foi adiada para sexta-feira. “Gostei do adiamento. Você pode reforçar o assunto ”.

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