MMA digital? Influenciadores da pandemia polêmica vencerão Likes – 31/03/2020

Duas horas depois que um vôo do Canadá para a Jamaica decolou em fevereiro, o rapper Potok Philipe disse a outros passageiros que ele era da China e tinha um coronavírus. Ele queria postar um vídeo da piada em sua mídia social, mas fez outra coisa. O avião deu meia-volta, atrasando a vida de 243 pessoas e, ao pousar, foi preso.

A atitude de Potok não é isolada. Os influenciadores digitais de todo o mundo e, em menor grau, outras celebridades brasileiras da internet adotaram medidas semelhantes.

Os especialistas entendem que fazer todo o possível para aparecer é uma falta de responsabilidade. As celebridades brasileiras discordam. Eles dizem que navegar na pandemia é uma ótima estratégia de marketing.

Sem noção

O aspirante a rapper Potok Philipe (apelido James Potok, 28 anos) nunca pôs os pés na China, mas disse que visitou Hunan, uma província chinesa a apenas 300 milhas de Wuhan, onde começou o surto de coronavírus. A história continuou e, cerca de dez minutos depois, as aeromoças da WestJet em máscaras o isolaram de outras pessoas.

Assim que o avião retornou a Toronto, Potok passou por testes negativos para o coronavírus. Pouco depois de ser preso pela polícia, ele tinha o celular onde o vídeo foi confiscado e acusado de dois crimes.

Você acha que ele se arrependeu? Dois dias depois, ele estava falando sobre uma história no Instagram. “Não há publicidade ruim. Espere novas músicas e videoclipes.”

A brincadeira frustrada do músico continuou antes que o covid-19 fosse considerado uma pandemia e precursor de algo pior.

Ava Louise, uma celebridade de 21 anos do TikTok, apareceu em um vídeo lambendo o assento de um avião. Lançamento do desafio Coronavirus. “Não consigo pegar coronavírus … Como os gays, as loiras ricas são imunes”, acrescentou. Após as repercussões negativas, ele afirmou que o desafio nunca foi real.

Havia pessoas que entraram na moda. Um deles foi Larz, um influenciador que consolidou sua fama participando do desafio de lamber sorvete no supermercado e devolver a panela à geladeira. Fora da Internet, ele ficou famoso mesmo por dizer em um programa de televisão que não fala com sua mãe porque ela não tem tantos seguidores.

Dias depois de dar duas belas lambidas no banheiro, ele postou um vídeo dizendo que eles testaram positivo para coronavírus.

Para reforçar a narrativa de que o jogo nunca existiu, Ava Louise disse que ela é “a melhor amiga de Larz” e que o vídeo era antigo. Tudo fazia parte do plano de tirar sarro de todos.

Louise chegou ao ponto de explicar suas intenções no site Business Insider. “Eu só queria mais atenção do que essa vadia da coroa, mas ela é boa. Então eu aproveitei o capital dela. E agora sou como notícias globais”. Até agora, ela não foi responsabilizada off-line.

O mesmo não se pode dizer de Cody Pfister, 26. Ele gravou um vídeo e foi acusado de terrorismo. Por que ele apareceu lambendo artigos de higiene de um Missouri Walmart. Para as autoridades, estava “conscientemente causando uma falsa crença ou medo de que exista uma condição com risco de vida”.

“É impensável, totalmente estúpido fazê-lo”, diz Diogo Cortiz, pesquisador e professor de ciências cognitivas da PUC-SP. “São estratégias para criar uma contra-regra, para criar uma contracultura, como se estivessem rompendo com o que a OMS [Organização Mundial da Saúde] Isso está dizendo que isso representa um risco, porque pessoas menos informadas podem começar a pensar nessas idéias que a pandemia não é tão grave, que é manipulação e que você pode sair.

“É muito sério”, diz Raquel Recuero, professor de comunicação da Universidade Federal de Pelotas. “Os influenciadores costumam usar seu amplo espaço de público on-line para espalhar informações divertidas e até sarcásticas, mas a rede não entende dessa maneira. E isso acaba influenciando o comportamento desse público”.

Para Cortiz, os influenciadores não entendem “que os interlocutores deste conteúdo são pessoas de todos os níveis”. “Existem pessoas muito informadas que dizem que esse conteúdo é péssimo, mas há pessoas menos informadas que o acharão interessante e poderão comprar essa idéia”.

Esse imperativo de visibilidade que temos hoje acaba criando pressão para gerar ‘curtidas’ e muitas vezes essas pessoas influentes acabam sem curar o próprio conteúdo e acabam levando as pessoas a se comportarem de maneira prejudicial
Rachel Recuero

Para eles, esse comportamento é impulsionado pela operação de plataformas sociais.

“Como toda a lógica das plataformas gira em torno de conversas sociais sobre os temas do dia, o tema do dia é a pandemia. Isso torna necessário gostar, compartilhar e comentar. Todos os que tentam ser um os influenciadores acabam abordando essa questão. O problema é o jeito que é feito “, reflete Adriana Amaral, professora de pós-graduação em ciências da comunicação da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos).

No Brasil, os influenciadores não apresentaram desafios malucos, mas viram a epidemia como uma boa oportunidade para anunciar.

Mary Salvaya geralmente cria conteúdo sobre maternidade e geralmente usa sua filha como uma menina amadora. Na semana passada, ela postou no Instagram uma foto do garoto vestido de pijama de unicórnio. O post foi tratado como “o conselho de Clarinha para uma quarentena mais fria”, mas na verdade era um anúncio para uma marca de roupas infantis.

Salvaya não esconde a intenção. “No post, comecei a legenda usando a frase ‘pegue seu pijama favorito’ e, subliminarmente, minha filha estava com a de uma marca famosa. Para começar com essa frase, empatia com quem não tem igual. [Os que não têm] Eles podem fazer compras on-line e receber no conforto de sua casa, se assim o desejarem. “

Outras “celebridades” digitais usaram vídeos de higiene para evitar se contaminarem com coronavírus para fazer propaganda de cosméticos. Em um post no Instagram da consultoria de marketing digital Leandra Guedes Silva sobre um apartamento decorado, ela incluiu algumas hashtags como #coronavirus, #quarentena e #fiqueemcasa para aparecer nas pesquisas dos usuários por problemas relacionados a pandemia.

“Certamente é uma estratégia, especialmente porque nada mais se fala. Portanto, temos que encontrar maneiras de inovar e criar conteúdo que chegue às pessoas”, afirmou Silva. Inclinação. “Acho que essa estratégia é válida e até necessária para uma pandemia como o coronavírus. O marketing tradicional e o digital visam atingir pessoas que estão ou não interessadas em um tópico, produto ou serviço, ou que procuram informações ou conhecimentos. “

“Não está aproveitando um momento trágico como este, mas um alerta”, explica ele. “Digamos que a pessoa tire uma foto em um ambiente decorado, mas ao mesmo tempo esteja dando conselhos sobre o que fazer com o tempo deles, ou falando sobre como se sentem e como o momento atual faz com que fiquem lá. Não vejo nada errado.” Pelo contrário, eu vejo isso como algo positivo “.

Em uma das publicações, longe de ser educativa, ele afirma que “nunca apreciamos o fato de termos uma varanda em um momento tão difícil em que você mal consegue sair de casa” e cita as empresas de decoração de interiores.

Para o Recuero, ações como essa criam ruído. “Obviamente, você precisa ter responsabilidade pelo que é publicado.” O professor da PUC-SP concorda.

Os produtores de conteúdo devem ser críticos e entender sua posição. Entenda que seu papel pode ser entretenimento, mas você deve ser responsável e não incentivar situações que colocam as pessoas em risco e não usem a pandemia como estratégia de marketing.
Diogo Cortiz

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