Na nova capital, velhos jagunços

Olavo David Neto e Vítor Mendonça
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O ano de 1958 se tornou o ponto de virada de Brasília. Em construção há dois anos, a futura capital finalmente inaugurou seus primeiros edifícios públicos e oficiais, o Brasília Palace Hotel e o Palácio da Alvorada, como vimos no 34º relatório deste especial, e a obra inaugural, Ermida D. Bosco, viu A seleção levou para casa a Copa do Mundo e desconfia de sua inauguração, desaparecendo gradualmente. A densidade demográfica já era percebida na cidade que estava sendo construída com 4,2 habitantes por quilômetro quadrado, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

O índice dobrou em relação ao ano anterior, também de acordo com o censo do IBGE, e o então futuro Distrito Federal foi o centro das atenções no Brasil. Para tantas pessoas, não havia observadores. A segurança do canteiro de obras era fornecida apenas aos bens públicos em construção, através da Unidade de Guarda do Exército. Para os trabalhadores, o único zelo vinha do monitoramento dos campos, que eram estritamente controlados por empreiteiros particulares.
Era particularmente difícil pensar em medidas de segurança pública no planalto central.

Desapropriado pelo estado de Goiás e entregue aos interesses da União, o futuro Distrito Federal estava em uma situação “bastarda”: não estava ao alcance do governo central, devido a recursos e monitoramento, e não respondeu ao Executivo de Goiânia. Assim, o cenário perfeito foi formado para uma certa anarquia entre os trabalhadores. Armados, com sede e ameaçados, os trabalhadores viviam diariamente com a morte, nos campos de trabalho ou na vida noturna.

O apelido de uma elevação conhecida pelos candangos mais antigos vem dessa época. O Morro do Urubu recebeu esse apelido graças a bandos de pássaros, que pairavam no local devido ao grande número de corpos “desovados” no local. Nos campos, confusão desajeitada, como roubo de bebidas alcoólicas, era frequente. Na Cidade Livre, muitos relatos mostram a tensão em torno de bares, restaurantes, bordéis e antros de jogos, com homens altamente embriagados carregando armas de fogo.

Com a situação prestes a fugir do controle do estado de uma vez por todas, cabia à União recorrer, mais uma vez, aos cabanos para controlar o cenário na futura capital da República. Com medidas provisórias e emergenciais, o governo de José “Juca” Ludovico, um criador de mudança de classe mundial, que estabeleceu regras para permitir a construção quando ainda era uma promessa eleitoral, mais uma vez agiu para pavimentar o caminho para o poder nacional. .

Um monstro

No último ano de seu mandato, Juca enviou um projeto à Assembléia de Goiana para regular a segurança pública do canteiro de obras. Em 9 de dezembro de 1958, recebeu por sanção no Palácio de las Esmeraldas o que se tornou um Decreto Legislativo, posteriormente transformado na Lei nº 2.364. Segundo a norma, “até a transferência do Distrito Federal para o Planalto Goiano, o Departamento Regional de Polícia de Brasília (DRP) e, subordinado a ele, a Guarda Civil Especial de Brasília” foi criada.

No único parágrafo do artigo 1 do texto, o DRP ficou encarregado das funções da Delegacia Municipal, responsabilidade atual da polícia civil e da Unidade de Assuntos Internos da Polícia Estadual, hoje atribuída à polícia. militar. Era, portanto, um órgão com plenos poderes de execução, investigação e punição de possíveis excessos. A instalação da corporação policial seria realizada mediante um acordo com o governo do estado, a União e a Novacap.

Na prática, o GEB, acrônimo pelo qual a primeira polícia de Brasília entrou na história, seria uma força de segurança subordinada à Companhia Urbanizadora da Nova Capital, supervisores de plantações que pretendiam controlar trabalhadores, mantidos em boas condições. semelhante à escravidão. Como qualquer órgão repressivo, atuaria a favor da ordem atual, com o agravante de não ter treinamento adequado para seus membros, além da falta de controle externo acima mencionado sobre o desempenho da guarda.

O estado de emergência usado para a criação do GEB causou outra improvisação por parte do governo. Bem instalada, a força precisava de braços e mãos para vigiar. Segundo Jorge Sarkis, que chegou a Brasília em 1957, aos quatro anos de idade, era uma espécie de ocidental. O xerife chegou à cidade apenas com a estrelinha. Contra o mundo? ”Destaca o atual presidente da Associação dos Candangos Pioneiros de Brasília. “Não. Ele pegou o criador de problemas e fez dele um assistente; do nada, esse cara se tornou uma autoridade”, relata.

“Nós te amamos!”

Desde então, uma rede precária de suprimento de agentes foi formada em torno do GEB. “O recrutamento foi feito quando os candangos chegaram”, diz Leiliane Rebouças, formada em Relações Internacionais. “Se eu tivesse um tamanho físico maior, iria à polícia; caso contrário, eu iria para as obras ”, diz o pesquisador, dedicado à memória da Vila Planalto. Do outro lado do balcão, os jagunços despreparados começaram a perseguir e abusar da pouca autoridade que o Estado lhes dera, numa prática que amedrontava o retrato social da época.

A truculência dos funcionários públicos, que deveriam proteger a população, invadiu a imaginação dos trabalhadores. Mesmo durante o tempo livre, e mesmo que nada de ilegal tenha sido promovido, o anúncio da chegada da polícia mudou os estabelecimentos da Cidade Livre. “Havia pessoas que estavam no bordel, ouviram que o GEB estava chegando e ficou nu, correndo com as calças nas mãos”, diz Arimateia, ou simplesmente Ari, Mendonça. Foi a fama que precedeu a chegada dos capitães da selva. Criado para receber ordens, o guarda tornou-se vigilante no futuro DF.

Conjunto de espelhos

As narrativas históricas, de uma forma ou de outra, são produzidas a partir da perspectiva dominante. A trama de Juscelino Kubitschek como o principal construtor de Brasília, por exemplo, deixa de lado as barbáries comprometidas na esfera trabalhista daqueles que deram vida às magníficas características de Oscar Niemeyer e Lúcio Costa; bem como o pensamento militar, na ditadura, promovendo a idéia do sonho de Dom Bosco de receber o crédito de JK pela construção da nova capital da República. São lados dos mesmos eventos contados a partir de particularidades que legitimam a narrativa.

E é o caso do episódio conhecido como “Massacre de Pacheco Fernandes”. No carnaval de 1959, a preocupação das empresas de construção era manter os trabalhadores sob controle estrito de todos os aspectos da vida proletária. A prática de desligar a água nos campos durante os finais de semana foi reutilizada, especialmente no domingo, 9 de fevereiro. Nesse dia, o almoço servido no restaurante de Pacheco foi particularmente ruim.

Após um alvoroço, no qual a empresa cozinhava, sofreu sérias ameaças e um tumulto inicial, o GEB ativou e conteve os espíritos à sua maneira. Ou seja, com truculência e falta de preparação. Trocas de golpes e maldições entre agentes e trabalhadores são relatadas em muitos dos 21 depoimentos do episódio disponíveis nos Arquivos Públicos do Distrito Federal. Depois que a confusão se dispersou, todos voltaram aos campos, mas era apenas a primeira rodada. Assim que o sol deixou o hemisfério, os guardas voltaram, e é aqui que um conjunto de espelhos se forma.

Segundo a versão oficial, a polícia chegou ao alojamento de Pacheco Fernandes e outra confusão começou. No meio do tumulto, um tiro atingiu um dos trabalhadores, que morreu dois dias depois, e depois se aposentou, sem mais retaliações contra os trabalhadores da empresa, ou outro tipo de desenvolvimento naquele domingo de carnaval. A narrativa dos funcionários públicos é apoiada por documentos oficiais, que datam de apenas uma morte no episódio, além de dois feridos.

A versão do trabalhador

Não é exatamente do que se trata a história popular. Segundo a versão proletária, o retorno dos agentes do GEB representou um massacre. Há relatos informais de que os agentes voltaram no escuro da noite e metralharam metralhadamente os quartos improvisados, atirando onde seus narizes estavam apontados e sem verificar quem batiam. Conforme combinado, os mortos foram enterrados em algumas das várias obras do platô central, além de algumas sepulturas rasas em Planaltina. Quanto aos feridos, muitos fugiram e nunca voltariam a Brasília.

Um dos possíveis buracos na história se refere à característica das armas usadas pela força policial. Os guardas de Brasília usavam apenas munição 38, que geralmente ficava na recarga.

Portanto, não seria possível “metralhar” um campo inteiro com revólveres. Para Leiliane, há uma explicação. “Havia muitos guardas, todos atirando ao mesmo tempo. Você tem a impressão de uma arma automática, quando na verdade eram armas simples ”, argumenta. A explicação de Rebouças é apoiada pelas medidas tomadas pelas Forças Armadas.

Oito dias após a confusão no campo, 27 homens da Guarda Especial de Brasília foram presos por oficiais da Força Aérea e do Exército, graças à sua participação no episódio. Com quase 30 armas disparadas simultaneamente, é possível ter a sensação de uma metralhadora em ação.

Durante uma semana, o Jornal de Notícias, um jornal de Goiânia, acompanhou o caso. De 10 a 18 de fevereiro, seis histórias foram publicadas refletindo o massacre.

A agitação foi tão forte na capital goiana que Oscar Dutra, o “chefe de polícia” de Brasília, foi à cidade negar as informações transmitidas pelo jornal. No último dia, o artigo indicava que o caso de Pacheco Fernandes havia chegado à Prefeitura de Goiânia, com o MP Tabajara Póvoa criticando a polícia e defendendo a imprensa goiana. Da galeria, “o orador reafirmou suas declarações anteriores, observando que as notícias impressas pela imprensa local refletiam a verdade sobre o assassinato de trabalhadores na empreiteira Pacheco Fernandes”, diz o relatório.

Testemunha improvável

Dona Suzana deixou Santa Cruz do Inharé, no Rio Grande do Norte, vestida apenas com suas roupas. Cansada de fome e seca, ela jogou um graveto na única estrada da cidade e subiu no balde do primeiro caminhão que parou em frente ao obstáculo. Sem comer, ele desembarcou sozinho em Capinópolis, Minas Gerais. Trabalhar em um hotel na cidade logo a cansou, e as notícias da construção da nova capital da República a fizeram mudar novamente. Desta vez, com uma filha no colo.

Ele chegou ao canteiro de obras em 1958 com o pequeno Mendonça Negro nos braços.
No futuro DF, ele usou e abusou da criatividade para viver. Ele até morou atrás de um hospital dedicado ao tratamento da tuberculose, perto do campo de Tamboril e nos vestiários do antigo estádio Defelê. Dedicada a lavar roupas para os trabalhadores, conseguiu a água para subsistir e trabalhar abrindo pequenos orifícios nos canos da região, perto da atual Vila Planalto. Conquistou, portanto, clientes nos bairros dos construtores que se dedicaram à construção de Brasília.

Em fevereiro de 1959, Suzana atendeu a dezenas de trabalhadores no campo de Pacheco Fernandes. “Outro dia, ele chegou cedo para entregar as roupas que estava lavando e as passou para a equipe. Quando ela chegou, perguntou “onde está esse garoto?” Mas ela foi parada na porta “, diz Ari, o filho mais novo de Candanga.” Eles disseram para ele nem entrar porque ele teve uma complicação na noite anterior “, acrescenta. a trabalhadora, “quatro ou cinco” de seus clientes simplesmente nunca tiravam as roupas que haviam deixado para ela.

Nos livros escritos por e para os bastiões da construção de Brasília, o episódio não é mencionado. Ari entende os esforços das autoridades para “encerrar o caso”. “Eu acho que eles estão em seu papel. Eles estavam envolvidos em tudo o que aconteceu “, diz o filho de Suzana. “Eles teriam que pagar uma compensação. Houve muitas mortes. Ninguém teve coragem de desafiar o GEB ”, completa o morador de Vila Planalto, onde, ao lado da guarita do antigo campo de Pacheco Fernandes, há um monumento aos trabalhadores mortos.

AMANHÃ: A morte que interrompeu os trabalhos.

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