Não há necessidade de inventar: a retomada passa pelas tecnologias existentes

Visões do Futuro

Crédito: Rawpixel.com/Freepik

Se existe um consenso intelectual derivado da pandemia e as respostas necessárias para reduzir seus danos, é que as coisas não serão mais como antes.

Mesmo que desejemos que eles voltem, os hábitos serão diferentes, simplesmente porque as soluções encontradas para enfrentar a crise não desaparecerão da nossa memória.

Essa é uma visão otimista, é claro, que assume que a necessidade de superá-la nos ajudará a evoluir. No outro extremo, está a idéia de que vacinas e terapias eficazes levarão tempo para chegar às mãos do povo brasileiro e, enquanto isso, desafios emocionais e socioeconômicos nos arrastarão para baixo.

As diferentes versões do famoso “novo normal” partem de prerrogativas como essas para delinear paisagens globais, do ponto de vista de famílias e organizações. A boa notícia é que as peculiaridades locais são de grande importância na futurologia.

É tentador dizer que as características brasileiras são tantas e tão fortes que se sobrepõem a fatores globais. Não sei se é esse o caso, mas é um fato que elas abundam, são infladas e não mostram sinais de resfriamento. O exotismo nos define.

Este artigo procura discutir alguns aspectos do novo normal na área de tecnologia, com foco na produção de software, startups e o que vem junto. O objetivo é esclarecer três tendências que devem ser fortalecidas localmente, com a retomada gradual da atividade econômica e que vão contra muito do que tenho lido. Para isso, fui guiado por conversas com líderes do setor, dados originais de pesquisa e minha própria experiência como parceiro em um escritório de inovação, que existe há quase uma década.

Curva da retomada do “cenário tecnológico”

Vamos começar com o fator mais importante, sensível e imponderável: retomada.

Ninguém sabe ao certo o que acontecerá nos próximos meses, em relação ao curso da epidemia, o que significa que ninguém tem idéia de quando e como a economia brasileira reagirá. Dito isto, tanto a Universidade de Cingapura quanto as projeções da Universidade Johns Hopkins (dois importantes think tanks do COVID-19) apontam que, em termos epidemiológicos, a situação mais provável é que a situação local só se estabilize no final de dezembro. .

A estabilização indicada não pode ser confundida com a erradicação do COVID-19 (embora empresas como a Pfizer estejam falando sobre a possibilidade de lançar uma vacina em outubro deste ano, como você pode verificar aqui: https://cnb.cx/3dmlwJY). O que se espera neste momento é uma redução significativa nos casos observados, que dependerá das medidas de retirada social a serem mantidas, até que uma vacina em larga escala seja finalmente disponibilizada no país. Vale a pena ler o belo relatório do UOL sobre esses estudos.

Também não seria o caso supor que a atividade econômica nacional como um todo permanecerá estagnada nos níveis atuais, não se desespere, o foco aqui é a tecnologia. O ponto é que o ecossistema em que essa coabitação depende muito de fundos, que estão mostrando sinais de cautela prolongada em todo o mundo.

Tendências no mercado brasileiro de tecnologia.

O cenário tecnológico brasileiro é formado por pessoas que trabalham no mundo corporativo, pequenos e médios empreendedores-desenvolvedores do Vale do Silício, freelancers que circulam com chapéus diferentes e geralmente vivem de algo diferente e pesquisadores que programam a tempo. parcial. Muitas dessas pessoas se reúnem em reuniões, espaços de hackers, espaços dedicados em empresas (como Google), eventos específicos (como bsides), fóruns dedicados a diferentes idiomas, grupos no Telegrama e, indiretamente, no processo de encontrar soluções para problemas técnicos, no transbordamento da pilha e outros.

Existem três maneiras essenciais de se manter ativo nesse mercado: iniciar um negócio com um produto rentável; trabalhar em uma empresa, de preferência bem estabelecida; Não tendo o desenvolvimento tecnológico como principal fonte de renda e combinando hobby com oportunidade. Meu foco está no primeiro.

Do ponto de vista do capital internacional e dos gigantes que se estabeleceram em Schumpteriana, Empresas de biotecnologia, conferências na web (como o Google Hangout, que cresceu 60% diariamente em março, e foco, que aumentou de 10 milhões para 220 milhões de usuários, entre dezembro de 2019 e março deste ano), conteúdo digital (como Netflix, que adquiriram mais de 15 milhões novos clientes este ano) e entrega de alimentos (como Rappi, cuja operação brasileira cresceu mais de 300% este ano) valem significativamente mais do que antes do início da pandemia. Tudo sugere que essa vantagem competitiva servirá como força motriz para consolidar essa relevância nos próximos meses.

Hoje, por exemplo, o Zoom vale mais do que as sete companhias aéreas mais valiosas do mundo juntas. Em 15 de maio, o Zoom valia US $ 48,8 bilhões, enquanto o Zoom Uber Valia US $ 56,8 bilhões, uma abordagem surpreendente, que poderia impulsionar a expansão da empresa em várias direções colaterais, em linha com o próprio Uber, que passou de “carona” para “empresa de mobilidade”.

O Brasil é menos exuberante quando se trata de inovação radical, e deve continuar assim, devido ao comportamento refratário dos fundos de Venture Capital, mas é bastante rápido quando se trata do cheiro de dinheiro. Somente em março, nosso comércio eletrônico registrou um aumento de 32,6% no número de pedidos, resultando em um faturamento (corrigido) 26,7% maior, de acordo com uma pesquisa realizada pela Buy & Confie, em associação com Associação Brasileira de Comércio Eletrônico. As vendas digitais de produtos de saúde cresceram 111%, enquanto as de perfumaria cresceram 83% e as de supermercados 80%. Esses números estão relacionados aos esforços de transformação digital, que muitas empresas desses setores já estão fazendo, apesar da falta de caixa.

As vendas on-line de alguns produtos especiais, como equipamentos de ginástica em casa, dispararam nos últimos meses (mais de 1000% no Centauro, por exemplo). Outro destaque são os eletrônicos e diversos mercados (Americanas, Magazine Luiza e outros), que definitivamente se estabeleceram no cotidiano da classe média e, portanto, tornaram-se ainda mais estratégicos. Esse aumento não significa que todas essas empresas estão ganhando mais dinheiro do que antes da pandemia, é importante ter em mente. Ainda assim, aqueles que tiveram uma diminuição no faturamento e no valor de mercado certamente seriam muito piores se não fossem suas operações digitais bem estruturadas. Ao mesmo tempo, existem casos como o Magalu, cujo valor de mercado aumentou significativamente, superando o do Banco do Brasil, entre outros titãs, devido ao crescimento de seu mercado que ultrapassou 70% este ano.

Embora sonhemos com invenções magníficas, o mais realista é que a recuperação do setor no Brasil é dominada pela proliferação de contratações e negócios destinados a transformar a dinâmica de vendas daqueles que não anteciparam a crise ou não têm dinheiro suficiente para fazê-lo agora. . Espera-se que esses recém-chegados aumentem a demanda por mercados, sistemas de pagamento, CRM, ERP online, segurança, logística e similares, com a expectativa de reverter as perdas para o período atual. Paralelamente, eles devem fortalecer a expansão e a maturidade do marketing digital, que ainda não atingiu todo o seu potencial aqui.

Outra área tecnológica que deve ganhar muita força é a educação remota, por meio das plataformas LMS (do tipo Moodle e sua prima corporativa, Totara). Isso ocorre porque os pedidos que chegam ao mercado tendem a envolver muitas personalizações, que os grandes fornecedores internacionais têm dificuldade em cumprir sem aumentar muito o preço. Não me surpreenderá se o próximo unicórnio nacional vier deste segmento.

Ao compartilhar os princípios tecnológicos essenciais das modernas plataformas de ensino (escalabilidade, aprendizado de máquina e capacidade de resposta), espera-se que várias plataformas de serviço surjam ou sejam estabelecidas no próximo ano. Desde o pré-exame médico remoto (anteriormente não decolando devido a questões regulatórias), os mercados independentes / autônomos, a corrosão do emprego formal, combinada com inseguranças na saúde do consumidor, deve aumentar a concorrência em vários segmentos das relações digitais. É disso que muitas pessoas que investem na área têm falado, com propriedade.

Internacionalização de oportunidades.

Para o mercado internacional, os salários pagos no Brasil, para especialistas na área de tecnologia, nunca foram muito altos, mas estavam sempre longe dos níveis obscenos encontrados na Índia e em outros países onde as pessoas falam inglês fluentemente. Isso explica por que, tradicionalmente, as multinacionais focam pouco na terceirização de tecnologia aqui.

Acontece que essa perspectiva mudou muito nos últimos meses, uma vez que o real se desvalorizou em relação ao dólar e é conhecido como moeda tóxica. Vale ressaltar que nossa moeda teve o pior desempenho do mundo entre janeiro e abril deste ano.

É verdade que a recuperação econômica que serve de pano de fundo para as turnês atuais está alinhada com a valorização do real; No entanto, como a situação política sugere um agravamento da instabilidade, não parece sensato apostar contra o dólar. Essa linha de raciocínio é consistente com a dos bancos internacionais, como o UBS, que em seu cenário mais pessimista prevê que a moeda dos EUA. EUA Será de R $ 7,35 no final de 2021 (não acho que seja esse o caso, mas também não estou esperando uma recuperação relevante do real).

Conclui-se que, proporcionalmente, deve haver mais projetos de tecnologia voltados para o mercado internacional, além das fusões e aquisições de empresas brasileiras de tecnologia com escritórios de empresas estrangeiras, não que sejam muitas (as empresas nacionais e internacionais permanecerão estáveis), mas haverá o suficiente para falar sobre uma tendência da fase I do novo normal e trará como um de seus efeitos colaterais o reforço da percepção de que o inglês é essencial para quem trabalha nessa área.

Da mesma forma, uma das conseqüências da consolidação do trabalho remoto nos Estados Unidos, Europa e Ásia é a proliferação de equipes descentralizadas e de alto desempenho, com profissionais de tecnologia espalhados por diferentes países. O Brasil se destaca nas áreas mais criativas da tecnologia (por exemplo, pós-produção, 3D, front-end), há muito tempo alimentadas por agências de publicidade, empresas de produção, agências de design e afins. Suponho que alguns desses talentos acabem sendo contratados para cargos estratégicos por empresas americanas e européias, complementando a estrutura criada pela terceirização mais geral.

Espaços físicos e home office permanente.

O New York Times publicou em 19 de maio um ótimo artigo sobre a mudança que empresas como o Twitter estão fazendo para tornar o escritório doméstico permanente. Mais recentemente (29/05), a EXAME divulgou os resultados de uma pesquisa encomendada pela empresa de serviços imobiliários Cushman & Wakefield sobre tendências no universo corporativo, para a retomada. A amostra foi composta por executivos de multinacionais. Segundo 59% dos entrevistados, há aspectos mais positivos do que negativos no escritório central e cerca de 73% das empresas (neste caso, as multinacionais que operam no Brasil) pretendem manter a prática, em algum nível ( para obter mais informações: https: //bit.ly/2MfAkhm).

De fato, duas entidades centrais no cenário tecnológico não têm data para recuperar seu prestígio: o coworking e a sala gigante que leva a uma grande sala cheia de pessoas. Mas é isso, e também do que as pessoas estão falando no calor do momento, o suficiente para assumir que o escritório residencial permanente se tornará uma tendência dominante? Acho que não, ou melhor, não tanto quanto foi relatado.

O coworking é o símbolo máximo da economia compartilhada no trabalho e, devido aos investimentos em marketing da WeWork, caiu nos lábios das pessoas. No entanto, quando olhamos para os números, a imagem é menos contagiosa, principalmente fora da cidade de São Paulo. O sentido feito em 2019 mostrou que havia 1.497 coworkings no Brasil, 388 na capital São Paulo. Não há tantos. O importante é que a redução do interesse em coworkings, devido ao risco de transmissão COVID-19 (e seus efeitos psicológicos a longo prazo) não deve afetar o cenário tecnológico de maneira muito relevante, exceto pelo fato de que muitos empresas neste campo, o ramo acabará por quebrar.

O caso mais sério é o de edifícios corporativos com elevadores para 19 pessoas, que terminam em lajes para mais de 100 e tendem a acomodar escritórios multinacionais e muitos dos menores. Muitas pessoas preferem evitar subir nessas condições, o que será um problema para as empresas.

No entanto, dois fatores entrarão no modelo mental dos tomadores de decisão envolvidos nesta questão. A primeira, a mais importante, é que nosso estilo de fazer negócios depende muito da empatia, ao contrário do que acontece na matriz, que tentamos copiar. Devido a uma tradição que combina personalização e descrença no poder dos contratos, é muito difícil fechar um projeto relevante no Brasil sem passar por uma espécie de julgamento do sofá platônico (um “namoro de idéias”, com muitos olhos no olhos), que não podem ser reproduzidos corretamente virtualmente. Todo empreendedor com um pouco mais de conhecimento sabe disso: a área de tecnologia não é exceção.

O segundo fator é que o universo das pequenas e médias empresas, na maior parte do cenário tecnológico, possui lacunas que não são insignificantes na gestão de pessoas e informações. No Brasil, apenas grandes empresas e bancos são gerenciados profissionalmente a ponto de poderem migrar a operação para o ambiente remoto sem sofrer muito. Para todo o resto, há uma falta de gerentes treinados, dinheiro para comprar as licenças de software necessárias para colocar todo o equipamento em funcionamento, miotodologias para monitoramento remoto do processo de produção (que é crítico em tecnologia), bem como a vontade de fazer interações mais impessoal e, portanto, chato em nome da produtividade. Hoje, tudo isso está em segundo plano, especialmente porque as coisas são mais lentas, no entanto, essas lacunas devem ser o centro do debate, uma vez que o mercado esquenta.

Tudo isso me leva a acreditar que o movimento principal será a combinação do escritório em casa parcial, que na maioria dos casos deve favorecer as divisões menos críticas para os negócios, com a ocupação de espaços menores e mais ventilados, fora das áreas de maior verticalização das cidades. Essa hipótese está alinhada com outros dados do Cushman e Wakefield: Segundo aproximadamente 45% dos executivos, o espaço físico das empresas deve ser reduzido e essa redução deve estar entre 10% e 30%. Esse movimento deve trazer à luz a discussão nunca pacificada sobre mudanças no zoneamento urbano, em São Paulo e outras capitais, para acomodar a mudança no perfil da demanda corporativa, que é outra discussão, não menos importante.

Fechar

Se existe um lema para todos os exercícios de futurologia, é que, no final, acabará sendo pelo menos parcialmente incorreto. Consciente disso, apresentei algumas opiniões que vão contra muito do que dizem, na esperança de desencadear um debate saudável. Chegará a hora de emitir o veredicto sobre a relevância dessas previsões.

Como argumento, a retomada não nos levará a inovar mais, no sentido radical e genuíno, mas a promover a difusão de tecnologias já consolidadas, com foco na famosa transformação digital. O argumento é simples: ouse exigir capital de risco e isso permanecerá retraído por um longo tempo, enquanto o atraso tecnológico, em sua esfera mais elementar, cobrará cada vez mais seu custo, aquecendo a demanda por arroz e feijão da tecnologia.

Outro ponto, agora em relação à nossa capacidade de entrega tecnológica, é que seremos mais notados por empresas estrangeiras. Mais uma vez, o motivo é prosaico: o real continuará sendo desvalorizado por um longo tempo e isso impulsionará a terceirização operacional da tecnologia (que tende a crescer nos Estados Unidos e na Europa), além de algumas contratações de alto nível aqui.

Finalmente, acredito que o escritório doméstico espaçoso e irrestrito não se tornará uma tendência dominante na área. Parece mais razoável considerar que vamos nos espalhar em espaços mais arejados e menos agudos, fora dos circuitos gerenciados dos centros de negócios. Ao combinar o escritório doméstico parcial e ocupar esses espaços, eliminaremos muitas bugigangas, como o relógio de ponto e as insígnias. Isso é bom que a pandemia pode nos trazer.

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About the Author: Edson Moreira Bezerra

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