Obras de Monteiro Lobato são atualizadas após denúncias de racismo

Há 100 anos Monteiro Lobato (1882-1948) lançou seu primeiro livro infantil, A garota com o nariz chato. Foi a primeira porta que se abriu para o mundo mágico e popular do grupo do Sítio do Picapau Amarelo, onde Narizinho, Emília, Pedrinho, o Visconde da Sabugosa, entre outros personagens, viveram aventuras de êxtase que ultrapassaram em muito os limites da zona. onde morava a empresa fictícia. Essa foi a melhor e maior herança deixada pelo autor, que é meu bisavô: o poder de abrir a mente das crianças para o desenvolvimento de sua imaginação, criando a noção de possibilidades, de que com o esforço conjunto existem soluções e que tudo é possível. Esse legado é indelével, mas não podemos ignorar as mudanças sociais que ocorreram desde 1920.

Só percebi quem era meu bisavô quando eu tinha cerca de 13 anos, porque meu pai se tornou o representante legal da família e pouco depois chegaram os contratos com a TV, na década de 70. Nasci Cleo Campos Kornbluh, filha de Joyce Campos, neta de Lobato, e o judeu polonês Jerzy Kornbluh, sobrevivente do Holocausto. Não tive que conviver com o peso do sobrenome Monteiro Lobato na infância. Quando isso aconteceu, percebi que não era um fardo. Porém, senti necessidade de autoconhecimento, o que me levou a mergulhar em sua vida e obra.

Os chamados valores “lobacianos” de pensar, agir e posicionar eram constantes na família e acho que também ressoaram entre os leitores. É o gosto pela leitura, a capacidade de pensamento crítico, o amor pela arte, o desenho e a pintura, e uma poderosa imaginação e criatividade, bem como o espírito empreendedor e o gosto pela aventura. Eu também adiciono uma maior compreensão da natureza, oposição ao fanatismo e a importância da educação.

Recentemente, após a morte do meu pai, em 2015, quando fiquei sabendo de assuntos relacionados a Lobato, fiquei sabendo das acusações de racismo. A princípio fiquei surpreso, pois quem leu sua obra na minha geração não consegue entender como isso é possível, mas reli os livros e comecei a entender o motivo dessas reclamações. Sou historiador e imigrante (moro nos Estados Unidos há mais de vinte anos), experiência que me permitiu distanciar-me pessoalmente para analisar as denúncias. Então, eu digo: é preciso, primeiro, separar Lobato persona e Lobato escritor.

Para começar, é preciso contextualizar o momento histórico da época e, a seguir, situar Lobato no momento social em que viveu. Não se pode negar que o Brasil foi um país colonizado e que os colonizadores escravizaram os índios brasileiros e também trouxeram escravos africanos. Essa confluência de raças formou nosso país, nossa consciência, nossas estruturas sociais. E acho que esse cenário está retratado na escrita de Lobato. Essas estruturas evoluíram à medida que diferentes grupos sociais percebem a opressão do colonizador branco original e se voltam contra ela.

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Eu acreditava no mito de que no Brasil não existe preconceito racial, só existe preconceito econômico. Mas hoje entendo que o fim da escravidão e a baixa incorporação do negro à sociedade resultaram em um cenário favorável ao racismo estrutural, além da desigualdade econômica e educacional. E foi neste contexto social de debate que, em 2019, as obras de Lobato passaram ao domínio público, e vários editores e escritores decidiram editá-las. A discussão sobre a adequação de sua obra ganhou corpo e as denúncias de racismo se multiplicaram.

“Foram alteradas frases inadequadas, bem como a representação de alguns caracteres”

Entre 2000 e 2010 houve uma ação contra o livro Caça pedrinho, em que foi acusado de ser racista. Essa ação resultou na decisão de catalogar que o livro deve ser mediado por um adulto. Ao reler os livros, concordei com a decisão. As obras infantis de Lobato contêm expressões, frases e descrições que não podem ser transmitidas, mas que servem para abrir a discussão sobre preconceito, entre outros temas. Não há mais lugar para piadas racistas, homofóbicas ou misóginas. Para mim, era inútil simplesmente dizer que não era racista, precisava me posicionar como anti-racista. Então, decidi manter o legado de Lobato vivo e atualizá-lo para as gerações futuras.

Em conjunto com a editora Nereide Santa Rosa, da Underline Publishing, optamos por relançar os trabalhos de forma atualizada. A primeira a passar por esta edição, que já está nas lojas e será traduzida para o inglês em dezembro, é justamente Coriza. O texto está lá, quase na íntegra, mas foram alteradas frases inadequadas, assim como a representação de alguns personagens. A popular tia Nastasia foi modificada cirurgicamente. Retiramos todas as frases que consideramos preconceituosas, além de dar a ele uma injeção de “orgulho” por meio de um novo visual criado pelo ilustrador Rafael Sam. Vale ressaltar que também sou a favor da leitura do texto original, com o uso de notas de rodapé, prefácio e epílogo explicativo, para que, ao invés de censurar, abramos seu trabalho ao debate.

Faço isso porque, no fundo, ao mergulhar na vida pessoal de meu bisavô por meio das lembranças de minha mãe, Joyce, que morava com ele, percebi que Lobato não era realmente uma pessoa com atitudes racistas. Quando ficou três meses preso, em 1941, por criticar a ditadura do Estado Novo, e sem tratamento especial, fez amizade com todos os presos e rapidamente começou a ensinar português, história e geografia, e a ler e escrever. Quando os prisioneiros foram libertados, ele escreveu uma nota com recomendações para que amigos ajudassem o prisioneiro a encontrar trabalho. Nem é preciso dizer que a maioria dos presos era negra, o que já mostra que no Brasil existe e sempre houve um profundo preconceito estrutural: o negro vai para a cadeia com mais facilidade do que o branco. Há uma citação que diz “viver com igualdade é saber respeitar as diferenças. O respeito não tem cor, tem consciência ”. Acho que essa era a verdade interior do meu bisavô. E esse respeito pelo outro como ser humano foi transmitido de geração em geração e faz parte da minha essência.

* Cleo Monteiro Lobato é historiadora e curadora do projeto do novo livro atualizado do bisavô.

Publicado em VEJA de 2 de dezembro de 2020, edição nº 2715

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