Onde está a carne? Brasil equilibra torras e proteção florestal

Entre uma série de promessas de campanha presidencial mais convencionais, o ex-líder brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva, que busca derrubar o presidente Jair Bolsonaro nas eleições de outubro, incluiu uma promessa incomum: devolver aos brasileiros sua carne.

Com o aumento da inflação e a redução da renda, a carne bovina ficou mais cara no Brasil e o acesso a alimentos, incluindo cortes suculentos, um item básico do churrasco brasileiro, tornou-se uma questão chave na corrida.

“As pessoas vão voltar a comer picanha, uma costela… (e) voltar a fazer churrasco”, disse Lula no Twitter em maio, promessa que repetiu várias vezes durante a campanha . .

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Mas com os rebanhos de gado do Brasil se alimentando cada vez mais de pastagens recentemente desmatadas na Amazônia, alguns veem a promessa do desafiante de esquerda como contrária a outra promessa importante da campanha para impedir o desmatamento da floresta tropical do país sul-americano, que está desaparecendo rapidamente, um baluarte crucial contra das Alterações Climáticas.

A resposta para cumprir ambas as promessas de campanha, dizem especialistas em agricultura e meio ambiente, é garantir que as terras dedicadas à criação de gado se tornem muito mais produtivas e que a compra de carne bovina ligada ao desmatamento se torne muito mais difícil.

“A pecuária é tão ineficiente no Brasil que acaba se expandindo principalmente em lugares onde a terra é mais barata, como a Amazônia”, disse Ciniro Costa Junior, do CGIAR, consórcio internacional de centros de pesquisa agropecuária.

Mas “se aumentar a produtividade, pode baixar os preços (da carne)”, tornando-o mais acessível, disse ele ao Fundação Thomson Reuters em entrevista por telefone.

Reduzir a quantidade de carne que as pessoas comem em todo o mundo é visto como uma maneira fundamental de impedir as mudanças climáticas, já que a produção de carne gera muito mais emissões de mudanças climáticas do que muitos outros alimentos.

Mas no Brasil, com uma cultura centrada na carne bovina semelhante à da Argentina, os apelos ambientais para se afastar do churrasco estão ganhando força recentemente.

Cerca de 14% dos brasileiros entrevistados pelo Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística em 2018 disseram que se consideravam totalmente ou parcialmente vegetarianos, um aumento significativo em relação aos 8% em 2012.

Mas 66 por cento das 2.000 pessoas pesquisadas disseram que “discorda fortemente” de ser vegetariano de alguma forma.

“A maior dificuldade é a herança social”, com churrasco “característico da cultura brasileira”, disse Ricardo Laurino, presidente da Sociedade Vegetariana Brasileira.

Onde está a carne?

Dados do governo brasileiro mostram que o consumo de carne bovina este ano deve atingir seu nível mais baixo desde 1996, quando o rastreamento começou, com as pessoas comendo uma média de 25 kg por ano, à medida que os preços continuam subindo.

Isso está bem abaixo do consumo de carne bovina dos EUA de cerca de 85 libras por pessoa em 2019, embora mais que o dobro da média global de cerca de 20 libras, de acordo com a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação.

O consumo de carne bovina do Brasil foi afetado por fatores como exportações recordes com o aumento da demanda chinesa (o Brasil é o segundo maior exportador de carne bovina do mundo) e o agravamento da pobreza com a crise do custo de vida.

Uma pesquisa nacional de insegurança alimentar com mais de 12.000 famílias entre novembro de 2021 e abril de 2022 descobriu que quase 40% não compraram carne nos últimos três meses.

“Com o que a gente ganha não pode comer picanha, de jeito nenhum”, disse Walace Alves, que trabalha em uma fábrica de papel higiênico, do lado de fora de um açougue em Madureira, bairro do Rio de Janeiro.

Desmatamento para lucro

Os estados amazônicos respondem por 94% do aumento do rebanho bovino do Brasil nas últimas duas décadas, e a região agora abriga 93 milhões do rebanho total do país de 218 milhões de animais, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. (IBGE).

“Nos últimos 30 anos, a principal frente de expansão das pastagens tem sido a Amazônia”, disse Laerte Ferreira, professor da Universidade Federal de Goiás.

No entanto, a pecuária amazônica é atormentada pela baixa produtividade, e muitos agricultores fazem pouco para proteger ou aumentar a produtividade de suas pastagens.

Em vez disso, novas áreas florestais estão sendo constantemente desmatadas para criar gado, contribuindo para o desmatamento da Amazônia que disparou sob o presidente Bolsonaro, disseram os pesquisadores.

O Instituto Nacional de Pesquisas e Espaço (INPE) do Brasil disse esta semana que o número de incêndios na Amazônia, a forma mais comum de limpar terras para pastagens, atingiu seu nível mais alto em uma dúzia de anos em agosto, apesar da proibição federal de incêndios.

Enquanto o rebanho bovino do Brasil é 2,4 vezes maior que o dos Estados Unidos, sua produção de carne bovina foi apenas 60% da dos Estados Unidos no ano passado, mostraram dados dos dois governos.

A produtividade média da carne bovina nas pastagens brasileiras em todo o país é cerca de um terço de seu potencial, enquanto na Amazônia o número foi ainda menor, 30%, disse o instituto de pesquisa Imazon no ano passado.

Isso se deve em grande parte às práticas de pecuária que evitam amplamente o uso de fertilizantes e técnicas como a rotação de animais com culturas para melhorar a fertilidade do solo, dizem os especialistas. O resultado são gramíneas que rapidamente se tornam improdutivas para o gado.

“Em vez de manter a qualidade das pastagens ou renovar pastagens degradadas, os agricultores (ou seus descendentes) desmatam novas áreas”, disse o Imazon em seu estudo de 2021.

A análise do Imazon com base em dados da organização sem fins lucrativos MapBiomas mostra que 86% das áreas desmatadas na Amazônia brasileira entre 1985 e 2020 foram convertidas em pastagens.

Ativistas na Amazônia dizem que a maior parte desse desmatamento é ilegal, citando vários relatos de fazendeiros desmatando mais terras em suas propriedades do que o permitido legalmente.

Além disso, os “grileiros” -ou grileiros- atacam terras públicas para apropriar-se delas e desmatá-las, eventualmente vendendo-as a sojicultores e pecuaristas após solicitar títulos privados, em parte porque a terra agora é usada “produtivamente”.

Várias leis federais e estaduais permitem a privatização oficial retroativa de terras públicas apreendidas ilegalmente na Amazônia.

Um estudo de coautoria do World Wide Fund for Nature (WWF) descobriu que 94% do desmatamento entre 2008 e 2020 na Amazônia, bem como em parte da região do Cerrado, foi ilegal.

Mas correr um pouco de gado em terras recentemente desmatadas “não é produção, é um subterfúgio para que essa área seja reconhecida como legítima, o que é um crime”, disse Fabiana Villa Alves, diretora de produção sustentável e irrigação do Ministério da Agricultura.

Produtividade sobre expansão

Devido à baixa produtividade pecuária da Amazônia, entre 634 mil e 1 milhão de hectares teriam que ser desmatados anualmente e dedicados à pecuária até 2030 para acompanhar as projeções de produção de carne do governo, segundo estimativa do Imazon.

Mas as metas de produção podem ser alcançadas restaurando e pastoreando entre 170.000 e 290.000 hectares de áreas degradadas anualmente, menos de 1% das pastagens amazônicas, estimou.

Tereza Campello Certo, ex-ministra que apoia a campanha de Lula, disse que a recuperação de pastagens por meio do programa ABC+ do governo, que fornece subsídios para projetos de baixo carbono, pode aumentar a oferta de carne bovina do país e baixar os preços.

O programa restaurou 27 milhões de hectares de pastagens em todo o país entre 2010 e 2020 e os tornou mais nutritivos, disse o governo.

Os dados são baseados em pesquisa da Universidade Federal de Goiás, que mostra, no entanto, que a maior parte dessas terras melhoradas estava localizada fora da Amazônia.

Marcelo Stabile, pesquisador da organização sem fins lucrativos IPAM Amazônia, disse que, além de aumentar a produtividade, o governo deve adotar políticas para garantir que a pecuária não se expanda às custas da floresta amazônica.

Ele disse que mais empresas devem se comprometer a não comprar gado ou carne de áreas desmatadas ilegalmente, e que o estado deve designar como deseja que mais de 56 milhões de hectares de terras públicas atualmente não designadas sejam usados, principalmente na Amazônia.

Isso pode ajudar a limitar a expansão agrícola nessas áreas, aumentar os preços da terra e “tornar o aumento da produtividade mais atraente do que expandir para outras áreas”, disse ele.

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