Opinião Fuja da realidade com a TV Globo do Brasil

Decidi pular os programas da tarde, principalmente reprises de novelas e filmes de Hollywood, e ir direto para as notícias do horário nobre.

Há dez anos, um apresentador da Globo, William Bonner, comparou o telespectador médio do Jornal Nacional a Homer Simpson, incapaz de entender notícias complexas. Pelo que vi, esse padrão ainda se aplica. Um segmento sobre a escassez de água em São Paulo, por exemplo, foi destacado por um repórter, em pé no zoológico local, que disse ironicamente: “Dá para ver o olhar preocupado do leão com a crise hídrica”.

Ver a Globo é se acostumar com banalidades e fórmulas cansadas; muitos scripts de notícias incluem pequenos trocadilhos no final, ou alguma loucura de um transeunte. “Dunga disse que gosta de sorrir”, disse um jornalista sobre o técnico da Seleção Brasileira. Muitas vezes, segundos são dedicados a notícias perturbadoras, como a revelação de que São Paulo manterá os dados operacionais do abastecimento de água do estado em segredo por 15 anos, enquanto minutos inteiros são esbanjados em matérias como “o resgate de um homem que se afoga e que causou espanto e surpresa em uma pequena cidade “.

O resto da noite foi repleto de novelas, das quais se soube que as mulheres sempre usam muita maquiagem, brincos enormes, unhas polidas, saias justas, salto alto e cabelos lisos. (Nesse sentido, acho que não sou uma mulher.) As personagens femininas são boas ou más, mas unanimemente magras. Eles lutam por homens. Seu objetivo final na vida é usar um vestido de noiva, dar à luz um bebê loiro ou aparecer na televisão, ou todas as opções acima. Pessoas normais têm mordomos em suas casas, onde encanadores excitados visitam e seduzem donas de casa entediadas.

Duas das três novelas atuais falam de favelas, mas com pouca semelhança com a realidade. Politicamente, eles tendem ao conservadorismo. “A Regra do Jogo”, por exemplo, tem um personagem que, em um episódio, afirma ser um advogado de direitos humanos que trabalha para a Anistia Internacional no contrabando de materiais de fabricação de bombas para criminosos presos. A organização de defesa reclamou publicamente, acusando a Globo de tentar difamar trabalhadores de direitos humanos em todo o Brasil.

Apesar do alto nível técnico de produção, os romances eram dolorosos de assistir, com suas densas doses de preconceito, melodrama, diálogos coxos e clichês.

Mas eles tiveram seu efeito. No final das contas, fiquei menos preocupado com a crise da água ou com a possibilidade de outro golpe militar, como o leão apático e as mulheres vazias nas novelas.

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