Os idosos saem mais de casa; razão passa pela tecnologia e sobrevivência social – 13/05/2020

Os idosos saem mais de casa; razão passa pela tecnologia e sobrevivência social - 13/05/2020

Desde que a pandemia de Covid-19 chegou ao Brasil, o Instituto Locomotiva conduz uma série de investigações sobre os impactos da doença na vida dos brasileiros. Um deles, em associação com Dotz, envolveu 5.872 pessoas com mais de 18 anos e teve como objetivo mapear o comportamento diante da necessidade de se isolar e ficar em casa.

Classificamos os entrevistados em adultos saudáveis, adultos em risco (portadores de doenças que aumentam as chances de morrer de Covid-19), idosos saudáveis ​​e idosos em risco (relacionados a doenças pré-existentes, embora saibamos disso, do ponto de vista clínico, que todos os idosos estão em risco).

Estes são alguns dos resultados que encontramos, que nos surpreenderam muito e que compartilhamos em primeira mão com você.

Quanto você concorda com a seguinte frase: “Nos últimos sete dias, fiquei em casa”?

  • Adulto – 69,78%
  • Grupo de risco adulto: 68,00%
  • Idosos – 55,78%
  • Grupo de risco para idosos: 80,11%

Quanto você concorda com a seguinte frase: “Nos últimos sete dias, não participei de eventos sociais”.

  • Adulto – 76,67%
  • Grupo de risco adulto: 72,67
  • Idosos – 63,78%
  • Grupo de risco para idosos: 77,78%

Nos últimos sete dias, com quantos você saiu de casa?

  • Adulto – 2,45
  • Grupo de risco adulto – 2,43
  • Idosos – 2,70
  • Grupo de risco para idosos – 1,99

Em média, quantas horas você estava fora de casa quando saiu nos últimos sete dias?

  • Adulto – 3 horas e 32 minutos
  • Grupo de risco adulto: 3 horas e 58 minutos
  • Idoso: 3 horas e 20 minutos.
  • Grupo de risco para idosos: 2 horas e 13 minutos

Como você pode ver, os idosos saudáveis ​​saíram por mais dias do que os adultos saudáveis ​​e participaram de mais eventos sociais, embora os passeios fossem um pouco mais curtos, o que pode estar relacionado ao fato de os adultos principalmente irem trabalhar.

De uma maneira ou de outra, a grande questão é que as ruas têm muito mais pessoas idosas do que se possa imaginar. O objetivo deste artigo é ajudá-lo a entender esses resultados e sua relação com a tecnologia.

Por que os idosos são expostos?

Existem várias razões pelas quais as pessoas traem as recomendações para salvar vidas. Aqui na Locomotiva, estamos começando a entender isso além de teorias e especulações, com uma extensa pesquisa para obter tais respostas. Existe, de qualquer forma, uma estrutura geral que pode ser aplicada:

Primeiro, são impostas emergências àqueles que são forçados a deixar suas casas para evitar a fome, especialmente nas favelas, bem como aos médicos, enfermeiros e outros profissionais considerados essenciais neste momento.

Segundo, prevalece o peso das determinações institucionais e da lógica de grupo, o que lhe confere legitimidade moral.

Se essas determinações são homogêneas, mesmo aqueles que discordam tendem a segui-las. Se houver conflitos, como é o caso no Brasil, o moral do grupo enfraquece e abre-se uma lacuna para quem prefere se ater apenas ao que for conveniente para eles.

Depois vêm as perguntas mais individuais. Otimismo, auto-engano, miopia sobre o futuro, bem como ansiedade, tendências obsessivas e a introversão / extroversão do par afetam o apetite ao risco de cada um e, consequentemente, o grau de exposição.

Quando somos demitidos de algo que é importante para nós, como o contato frente a frente com nossa família e amigos, tendemos a procurar maneiras de compensar isso e preservar nossa satisfação com a vida. Uma das formas mais elementares é o suprimento virtual de nossas necessidades práticas, a outra é a virtualização relacional.

É possível especular que os idosos de nossa amostra estejam sob o signo de ruído institucional, mas não seria prudente dizer que é apenas isso, pois os idosos com maior risco são os menos expostos. Nossa hipótese é que dificuldades substitutas tornam o isolamento social mais doloroso, incentivando os mais saudáveis ​​a sair.

Quais são as dificuldades dos idosos?

No caso de dificuldades tecnológicas que dificultam a quarentena do idoso, um bloco combina aspectos econômicos e culturais gerais: Em média, os idosos têm renda mais baixa, acesso mais limitado à Internet, telefones celulares ruins, menos recursos para realizar tarefas digitalmente e um relacionamento com o mundo baseado em práticas fundamentalmente analógicas..

Depois, há dificuldades relacionais. À medida que a vida avança, as relações sociais tendem a diminuir numericamente e se concentrar nos amigos e na família mais próximos, cuja disponibilidade se torna muito mais decisiva no combate à solidão do que nas fases mais produtivas da vida.

Se esses familiares não estão muito disponíveis para interagir digitalmente com os idosos, eles tendem a se sentir mais sozinhos, o que os leva novamente às ruas.

Por fim, existem dificuldades específicas no gerenciamento de tecnologias digitais. Embora a total falta de vontade de se conectar esteja em acentuado declínio entre os brasileiros mais velhos, o fato é que a grande maioria adota novas tecnologias de maneira muito limitada, sob uma lógica que chamamos de “passividade tecnológica”.

São pessoas que respondem positivamente quando são guiadas e estimuladas, sem se sentirem capazes de liderar iniciativas digitais. Por exemplo, se a família organizar uma videoconferência e enviar um link, o sujeito clicará e participará, mas ainda não poderá organizar suas próprias reuniões virtuais.

Do nosso ponto de vista, a passividade tecnológica bloqueia a substituição compensatória no contexto das relações entre pares, incentivando o idoso a sair de casa.

Apesar de ser o último da nossa lista, esse fator não deve ser esquecido. Como tudo interage e se reforça, acaba tendo um impacto muito maior no comportamento do que parece à primeira vista.

Quando a tecnologia atrapalha

Também apresentamos duas características das tecnologias digitais dominantes no Brasil, que exacerbam essa passividade tecnológica do idoso.

Lado A: interoperabilidade

No mundo das telecomunicações, há algo chamado interoperabilidade. Quando o telefone apareceu, você não podia ligar para ninguém; pelo contrário, as extensões foram separadas. Décadas passaram antes de serem conectadas. Hoje, chamamos telefones celulares e telefones fixos, sem ignorar a importância dessa inovação. O mesmo se aplica ao e-mail: posso enviar uma mensagem do meu @usp para o seu @uol sem medo de me perder.

Nesse caso, por que não consigo enviar uma mensagem do meu WhatsApp para o seu Facebook Messenger, que são da mesma empresa? Ou, mesmo assim, por que não consigo ligar para você do Skype para conversar com você, que acabou de aprender a usar o Zoom?

Você quer a verdade? Qualquer coisa. Ou melhor, nada alinhado remotamente aos interesses da sociedade. Tanto é assim que é possível nas versões pagas ou “para negócios”.

A interoperabilidade corporativa é um problema conhecido, que tem sido tratado com crescente atenção por gigantes, bem como por algumas empresas iniciantes, como a Pexip, que oferece o que é convencionalmente chamado de “integração como serviço”. [integração como serviço], para facilitar a vida nesta comunicação digital da Babel.

O melhor é que aqueles que sofrem mais problemas de operacionalidade não consomem as versões pagas dos aplicativos nem podem pagar por um serviço que reúne tudo e permite centralizar o conhecimento e a abordagem digital.

Seria ingênuo supor que as empresas de tecnologia se mobilizariam espontaneamente para resolver esse problema, uma vez que a resolução tende a ir contra o sonho do próprio monopólio. É muito mais conveniente investir para que as dificuldades dos usuários mais antigos sirvam como catalisador na construção de consenso sobre a solução que eles fornecem.

É precisamente desse ângulo que se pode entender o movimento de lançar conferências na web para até 50 participantes do WhatsApp, em vez de agir de maneira mais direta para facilitar a vida de todos.

Lado B: integrações

A falta de interoperabilidade e a falta de integrações entre soluções digitais complementares criam problemas semelhantes: limitam a engenhosidade digital daqueles que têm dificuldade em baixar um número infinito de aplicativos, concluem registros com confirmação por e-mail, aprendem suas respectivas lógicas operacionais, etc.

A grande diferença está em como o mercado lida com essas questões. A interoperabilidade é uma placa fora do baralho para quem dita as regras do jogo, mas a integração apresenta algumas das melhores iniciativas digitais da nossa época: o exemplo mais bem-sucedido é o chinês WeChat, um super aplicativo que reúne facilmente todas as outras soluções. Por meio dele, é possível enviar mensagens, fazer ligações dentro e fora do país, transferir dinheiro, pedir comida, brincar, etc.

Fácil, mas perigoso

É bom para os idosos, mas terrível para a sociedade em geral. Isso ocorre porque o WeChat e outros como Alipay (China) e Go-Jek (Indonésia) tratam aplicativos hospedados sob seu guarda-chuva como adjuvantes que podem ser removidos, de acordo com seus interesses.

Definitivamente, não é o que o Rappi ou o iFood visualizam para seus negócios ou o que pode servir melhor a nossa população. Na prática, o problema é tornado órfão por soluções socialmente apropriadas. Talvez esse momento de mudanças tão dolorosas possa ajudar a mudar esse cenário.

Não é fácil resolver os desafios que eles impõem sem cair em armadilhas maiores: monopólios, regras que podem limitar a inovação e externalidades de todos os tipos. Ainda assim, é importante desenvolver uma agenda de debate em torno desses pontos e que as empresas de tecnologia incorporem de uma vez por todas o compromisso com a autonomia digital daqueles que ficam em casa.

Nunca na história isso foi tão importante.

* Álvaro Machado Dias é um neurocientista cognitivo, especialista em tomada de decisão do ponto de vista cerebral, professor da Universidade Federal de São Paulo, diretor do Centro de Estudos Avançados em Tomada de Decisão e Blogger de inclinação. Renato Meirelles é presidente do Locomotive Research Institute, professor de pesquisa e comportamento do consumidor no IBMEC, fundador da Data Favela e ex-presidente da Data Popular.

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About the Author: Adriana Costa Esteves

"Estudioso incurável da TV. Solucionador profissional de problemas. Desbravador de bacon. Não foi possível digitar com luvas de boxe."

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