Por que o número de pessoas recuperadas não indica sucesso no combate ao coronavírus – 08/10/2020

Pouco menos de cinco meses após registrar a primeira morte em março, o Brasil ultrapassou a marca de 100 mil mortes de covid-19 no último sábado (8). Nesse período, segundo dados do Ministério da Saúde, houve cerca de 3 milhões de infectados e quase 2,2 milhões se recuperaram.

Em meio à crescente politização da doença provocada pelo novo coronavírus, integrantes do governo Bolsonaro e apoiadores do presidente reforçam a última questão como sinônimo de que o Brasil está conseguindo controlar a pandemia e que a imprensa vem “cobrindo massivamente eventos negativos”, como disse o ministro Luiz Eduardo Ramos. do Secretário de Governo em maio.

Desde aquele mês, o Ministério da Saúde vem destacando o número de pessoas recuperadas. Na época, chegou a publicar diariamente o que chamou de Placar da Vida, com dados atualizados sobre “Brasileiros salvos”.

No entanto, os especialistas descrevem essa estratégia como “negação”. Em sua avaliação, destacar apenas os aspectos positivos em meio ao crescimento de casos e mortes no Brasil é uma forma de transmitir a falsa ideia de que as coisas estão melhorando.

Dados sobre a evolução da pandemia no Brasil mostram que a curva de infectados e mortos atingiu um patamar elevado e tem se comportado de forma bem diferente da de outros países, principalmente europeus.

Eles explicam que, como o coronavírus é um vírus que normalmente mata menos de 5% das pessoas que foram infectadas e apresentaram sintomas, espera-se que “mais de 95% se recuperem”.

“Enfatizar o número de pessoas recuperadas não muda nada neste momento. É preciso ser realista. Não é correto tentar minimizar a gravidade da doença”, disse Marcos Boulos, professor da Faculdade de Medicina da Universidade de Brasília, à BBC News Brasil. São Paulo, em entrevista recente. .

“A classificação dos países pelo número de casos é praticamente igual à classificação pelo número de recuperados. Por quê? Pois é natural que o país com o maior número de casos tenha o maior número de recuperados. Faz parte da dinâmica da doença ”, acrescenta Domingos Alves, chefe do Laboratório de Inteligência em Saúde (LIS) da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), de Ribeirão Preto.

Proporção morta x recuperada

Além disso, o número de recuperados conta uma história diferente.

O Brasil, por exemplo, tem até agora 100.000 mortes para 2,2 milhões recuperadas. Isso significa que uma pessoa morreu para cada 22 que se recuperaram da doença.

Essa proporção é bem menor que a de outros países que conseguiram controlar a pandemia, como a Coreia do Sul, referência na realização de testes massivos.

Lá, 305 foram mortos por 13.700 recuperados. Ou seja, uma pessoa morreu para cada 45 que se recuperaram da doença.

Na verdade, o Brasil prova pouco e enfrenta uma crise de subnotificação. Mas se, por um lado, as estatísticas oficiais distorcem a realidade, subestimando o número real de recuperados, por outro, também podem reduzir o número real de mortes.

Segundo Alves, existe uma subnotificação de aproximadamente 40% no total de óbitos.

Isso significa que, ao invés das 100 mil mortes registradas oficialmente, o Brasil já teria 166 mil mortes.

Essa subnotificação de óbitos, segundo Alves, se deve a uma combinação de fatores, entre eles o excesso de solicitações de exames, que atrasam os resultados dos exames.

Com isso, os médicos acabam fazendo atestados de óbito sem um diagnóstico específico.

Mas, mesmo em comparação com países que não fazem testes massivos, o Brasil também fica para trás.

É o caso da Argentina, por exemplo. Até agora, houve 4.600 mortes das 170.000 recuperadas. Isso equivale a uma morte para cada 37 recuperados.

No Chile, um dos países com uma das maiores taxas de mortalidade por 100 mil habitantes, a proporção é de um óbito para 34 recuperados, a mesma do Peru.

“O fato de o Brasil ser o segundo do mundo em número de pessoas recuperadas não significa que estamos conseguindo controlar a pandemia. Significa apenas que tivemos muitos mais casos”, explica Alves.

“Diante do número de recuperados, o número de mortos no Brasil é muito grande, e isso mostra que o governo não tem tido sucesso”, finaliza.

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