Relatório de pesquisadores sobre as dificuldades do Brasil no combate à pandemia devido a cortes na ciência

Relatório de pesquisadores sobre as dificuldades do Brasil no combate à pandemia devido a cortes na ciência

A nova pandemia de coronavírus chegou ao Brasil em meio a um cenário de cortes nas bolsas de pesquisa, defasagem tecnológica nos laboratórios e desmoralização das universidades.

O gargalo do teste em São Paulo é resultado da falta de reagentes químicos e de profissionais treinados para realizar os testes. A pandemia de covid-19, a doença respiratória causada pelo novo coronavírus, Sars-Cov-2, levou a uma corrida internacional por suprimentos e equipamentos médicos, na qual os países com maior poder econômico têm uma vantagem competitiva. Nos últimos dias, os Estados Unidos adotaram uma postura agressiva de aquisição, levando a críticas de líderes de diferentes países, como Alemanha, Canadá e França.

“É claramente uma questão de segurança nacional”, diz o imunologista Mauro Teixeira, professor do Instituto de Ciências Biológicas da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

Dependendo da importação de suprimentos e outros equipamentos médicos e hospitalares, o Brasil está ameaçado com sua capacidade de responder à pandemia no curto prazo.

“Com todos os países que precisam, aqueles que investiram em CT&I podem, de alguma forma, ter mais armas. Israel é do tamanho de Sergipe e pode fazer 5.000 testes por dia”, diz Alberto Chebabo, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Doenças Infecciosas. . “Os países que investiram pesadamente nessa área conseguiram sair da crise mais rapidamente do que outros. É o caso da Coréia do Sul, que testou milhares de pessoas assim que a pandemia atingiu o país”.

Chebabo é diretor médico do Hospital Universitário Clementino Fraga Filho, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Alguns dias atrás, ele e sua equipe ficaram surpresos com o cancelamento da compra de um videolaringoscópio, um dispositivo usado na intubação de pacientes. O motivo, desta vez, não foi a falta habitual de recursos, mas a proibição de exportar o equipamento pelo governo do Reino Unido, a sede do fabricante.

Evasão de cérebros

A disparidade nos investimentos em C&I também intensificou um processo conhecido como fuga de cérebros: cientistas deixando o país para trabalhar em centros de pesquisa com melhores condições de trabalho. Consequentemente, as possibilidades de o Brasil desenvolver tecnologias e abordagens inovadoras internamente são reduzidas.

Os sucessivos cortes de recursos e o descrédito do pensamento científico foram os principais motivos que levaram Marcelo Lima, 34 anos, a deixar o país. Pós-doutorado em Biomedicina, deixou a Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) para ir à Universidade Keele, na Inglaterra, em maio do ano passado.

“No Brasil hoje, a academia é literalmente demonizada, e o conhecimento científico foi refutado pelos ‘especialistas’ nas redes sociais”, diz o cientista. Com experiência internacional no Reino Unido, Itália e Estados Unidos, ele diz que nunca conheceu um laboratório com a infraestrutura que possuía na Unifesp.

São Paulo possui condições privilegiadas para promover a pesquisa por meio do apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), cujo orçamento é independente de decisões políticas, pois está diretamente relacionado à arrecadação de impostos estaduais . Apesar desse cenário, os laboratórios de São Paulo sofrem com a falta de recursos federais.

No laboratório elogiado por Marcelo, existem cinco equipes, avaliadas em 1 milhão de euros, detidas por falta de recursos para manutenção. Há dois anos, o grupo de pesquisa em que trabalhava, liderado pela professora Helena Nader, ganhou um edital da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) que permitiria o reparo de um dos dispositivos. Até o momento, os fundos não chegaram.

“Com incentivos institucionais, uma burocracia reduzida e um sistema eficiente de laboratórios multiusuários, as pesquisas aqui são muito mais eficientes. É comum esperar meses para obter um reagente no Brasil. Aqui, conseguimos fazer a compra e a recebemos no dia seguinte. e maior proteção ao sistema de CT&I “, avalia Marcelo. Nos últimos três anos, seis de seus colegas, de São Paulo, Minas Gerais e Paraná, acompanharam o movimento para deixar o país.

Curto ciclo de expansão de interrupção

No final de outubro, universidades e instituições de pesquisa brasileiras haviam perdido quase 18.000 bolsas apenas em 2019. Em maio passado, o governo federal restringiu 42% das despesas do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC).

Foi o culminar de uma trajetória de cortes sucessivos no orçamento do ministério, iniciada no cenário de crise econômica do segundo governo de Dilma Rousseff, que interrompeu um ciclo de expansão do investimento iniciado durante o governo de seu antecessor, Luiz Inácio Lula da Silva.

Dados da National Science Foundation (NSF), EUA. Os EUA mostram que o Brasil teve um salto de 69,4% no número de artigos científicos publicados entre 2008 e 2018. Em 11º lugar no ranking de publicações científicas, o país estava à frente do Canadá, Espanha, Austrália e Irã.

“[O atual] É um cenário totalmente diferente da epidemia do vírus zika, quando tínhamos laboratórios bem equipados, equipados com reagentes e muitos estudantes com bolsas de estudos “, afirma Amílcar Tanuri, virologista e professor da UFRJ.

Em 2015, o Brasil liderou a descoberta da relação entre o zika e o aumento dos casos de microcefalia e outras alterações nos bebês. O papel científico brasileiro foi reconhecido pela Organização Mundial da Saúde (OMS), que, na época, enfatizava a rapidez nas investigações realizadas pelo Brasil.

Reconhecido internacionalmente por seu trabalho em genética de vírus, Tanuri esteve na África em 2014, no auge da pior epidemia de Ebola do continente. Agora, ele lidera um grupo de trabalho com cerca de 50 pesquisadores voluntários da UFRJ para investigar a resposta imune de pacientes ao vírus no Brasil.

Uma delas é a bióloga Liliane Tavares, 29 anos. Sua bolsa de pós-doutorado, concedida pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), está vinculada a um projeto do Laboratório Nacional de Computação Científica, que termina em julho. Sem perspectiva de renovação, ele espera encontrar oportunidades fora do campo acadêmico ou em outro país. “Pensar que passei 11 anos em pesquisa e que talvez precise mudar de área traz muita angústia”, diz o cientista.

Mudanças nos critérios da Capes

Quando a nova pandemia de coronavírus começou a reverberar no Brasil, a comunidade científica foi surpreendida por uma portaria da Capes que mudou a metodologia para financiar a pós-graduação no país. Os parâmetros escolhidos para orientar a nova política foram qualidade, produtividade e desenvolvimento social.

Os critérios, elogiados por entidades científicas, não parecem ter sido seguidos na implementação da política. Programas de média qualidade tiveram aumentos dramáticos no número de bolsas de estudo (até 500%), enquanto outros, altamente classificados, tiveram reduções abruptas.

Os dois maiores programas de pós-graduação em Física do Brasil, com sede no Instituto de Física e no Instituto de Física de São Carlos, ambos da Universidade de São Paulo (USP), tiveram cortes de 40% a 50% nas bolsas de doutorado . Ambos obtiveram o maior escore de qualidade avaliado pela Capes.

“É um desastre. Se o objetivo do MEC é desmontar o sistema de pós-graduação, está tendo sucesso”, diz Carlos Menck, coordenador da área 1 de Ciências Biológicas da Capes e professor titular do Instituto de Ciências Biomédicas da USP.

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