Respirador caseiro ajuda contra o coronavírus? Compreender os problemas do projeto – 06/6/2020

Respirador caseiro ajuda contra o coronavírus? Compreender os problemas do projeto - 06/6/2020

Muitas pessoas tentaram criar alternativas para suprir a falta de respiradores hospitalares, equipamentos médicos essenciais e a alta demanda de pacientes crônicos pelo novo coronavírus. Apesar da boa intenção, os especialistas pedem cautela, pois não é tão simples fazer uma delas.

Em primeiro lugar, é importante deixar claro que muitos pesquisadores sérios e qualificados se dedicaram ao desenvolvimento de respiradores baratos, como uma equipe da USP que trabalha 18 horas por dia para viabilizar um ventilador mais barato.

Por outro lado, várias outras “criações” baratas de respiradores apareceram no YouTube e no Twitter, nas quais os usuários usam peças alternativas.

Um dos vídeos que viralizou, do canal Rato Borrachudo, tem mais de 91 mil visualizações e mostra a montagem de um respirador com uma impressora 3D e a ajuda de um limpador de para-brisa.

Outro vídeo que se tornou viral é o canal Rocketz Labz, com quase 158.000 visualizações. Nos dois vídeos, os criadores deixam claro que seria um produto que seria usado em caso de emergência extrema, além de afirmar que é um projeto simples que precisa de adaptações.

A maioria dos vídeos de respiradores baratos mostra um mecanismo que mantém um ritmo fixo, como se fosse um ciclo respiratório (inspiração + respiração). Os projetos funcionam como um Ambu (Unidade de Respiração Artificial Manual).

Inclinação Ele procurou especialistas para descobrir se projetos como os mencionados acima podem ajudar a tratar pacientes com covid-19. A resposta curta é não. Embora pareça simples, um respirador usado para tratar casos graves de covid-19 tem muita tecnologia e muitas funções.

Geralmente, um paciente que precisa desse tipo de tratamento é sedado e não consegue respirar sozinho. Portanto, os respiradores permitem que os médicos façam ajustes em relação ao peso e altura do paciente, volume e pressão adequados de oxigênio, entre outros.

Respirador caseiro apresentado por youtuber Rato Borrachudo

Imagem: Reprodução / YouTube Rato Borrachudo

“Este não é um respirador. É um sistema de ventilação de emergência. É bem-intencionado, mas …”, disse Evaldo Stanislau, médico de doenças infecciosas do Hospital das Clínicas.

Equipados com um microprocessador, os dispositivos mais modernos calculam o volume de oxigênio de que o paciente necessita, além de medir os ciclos de inspiração e expiração, informando quanto de oxigênio o paciente recebeu e quanto deu, entre outras contas.

“Você pode até modificá-lo para aumentar a capacidade do pulmão, modificando as pressões existentes”, explica Stanislau.

A capacidade de medir a capacidade dos pulmões é um dos fatores que dificultam a fabricação desses dispositivos. Em resumo, os ventiladores pulmonares podem imitar o que o corpo humano normalmente faz durante um ciclo respiratório, mas podem aumentar a quantidade de oxigênio que o paciente normalmente respiraria.

As pessoas pensam que ele está colocando o galão lá e acabou, mas o respirador é muito mais do que isso. A caixa torácica possui um mecanismo de pressão complexo. Existe resistência das vias aéreas naturais, pressões que devem ser residuais para que o pulmão não entre em colapso. Simplesmente soprar ar pode não ajudar em nada.
Ellie Fiss, pneumologista do Hospital Alemão Oswaldo Cruz e professora da Faculdade de Medicina do ABC.

“Os ventiladores têm a vantagem, ao usar pressão, de aumentar a capacidade de receber oxigênio de nossos pulmões. Você também pode calcular o tempo de expiração, a inspiração. Em resumo, existem várias manobras disponíveis”, explica o médico. Hospital clínico

Uma das preocupações com os designs mais simples é a pressão sobre os pulmões. Até os respiradores mais velhos enfrentavam esse problema ao iniciar o ciclo apenas com a pressão que encontravam no órgão. Portanto, o respirador enviou o volume de ar, mas se houvesse pressão diferente, o ar não entraria nos pulmões e o dispositivo iniciaria um novo ciclo.

Produzir respiradores sem o cálculo da pressão ideal pode trazer outro perigo para os pacientes, pois o ventilador pulmonar deve oferecer uma pressão positiva no final da expiração.

“É como se, no final da respiração, o ventilador mantivesse uma pressão dentro dos pulmões para que os alvéolos permanecessem abertos. O mínimo que um respirador deve ter é esse. Portanto, apenas um limpador limpador trará problemas metabólicos para o paciente, como um barotrauma, devido à pressão excessiva “, diz ele.

Complexidade dos pulmões.

Nossa caixa torácica lida com pressões diferentes, que não podem ser calculadas como se os alvéolos fossem tubos rígidos, pois eles mudam a circunferência o tempo todo.

“Os brônquios são tubos que às vezes são mais dilatados, às vezes menos. Você precisa colocar ar dentro e fora, mas sempre deve haver um volume residual com uma certa pressão, que não pode ser muito alta. Caso contrário, o pulmão Ele explode. Se não houver volume residual, o pulmão entra em colapso “, diz o professor da Faculdade de Medicina do ABC.

Além disso, há o problema da expiração. Um mecanismo simples não filtraria o ar que sai dos pulmões, infestando o ambiente com o novo coronavírus, colocando riscos para pacientes, médicos, enfermeiros e fisioterapeutas que trabalham no local.

O que a Anvisa diz?

Os ventiladores pulmonares são regulamentados pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Com o aumento da demanda, a agência desenvolveu um documento com etapas para a produção deste equipamento.

O documento, baseado em Norma técnica da ABNT PR1003, criado em maio, traz nove etapas para desenvolver e regular os ventiladores pulmonares. Algumas especificações listadas são “padrões técnicos aplicáveis, desenhos, procedimentos, testes e resultados, especificações de hardware, configurações de software, análise de risco e fatores humanos”.

A norma declara que equipamentos como ventiladores para uso doméstico, apneia do sono e ventiladores domésticos para pacientes com deficiências respiratórias não devem ser usados ​​para tratar pacientes com covid-19.

O respirador manual do tipo Ambu pode ser usado em casos covid-19, mas apenas para pacientes em situações de emergência momentâneas. Além disso, deve ser gerenciado apenas por médicos e em situações de emergência para a ressuscitação de pacientes em parada cardiorrespiratória.

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