Saxofonista Suka Figueiredo quer mais espaço para trompetistas no jazz brasileiro e na música instrumental

Foto: Rafael Pena

Por Adailton Moura
| 28 de setembro de 2022

Apesar de uma formação jazzística, Suka Figueiredo afirma que ela não toca jazz. Aos 32 anos, a saxofonista carioca acredita que ainda não atingiu o alto grau de conhecimento e domínio técnico em sua arte que a tornaria uma virtuose. Por isso, prefere dizer que toca música instrumental.

“Não tive tempo de abordar o jazz, lanoso e a obra de Pixinguinha porque a vida é muito louca”, diz. “Eu não caracterizo meu som como jazz porque meu som não é virtuoso, é complexo.”

Ao contrário da maioria das pessoas que tocam trompetes ou instrumentos de sopro, Suka teve seu primeiro gosto pelo saxofone aos 25 anos. Seu interesse pelo instrumento surgiu por acaso após assistir a uma performance de rua no bairro onde morava. São Paulo, em 2016, pelo saxofonista Vinícius Chagas, que tocou no projeto Jazz na Kombi que levou o jazz para vários lugares em uma Volkswagen Kombi. O amor era tão forte que no dia seguinte ele se matriculou na escola de música.

“No momento, [Chagas] Ele tinha o cabelo loiro platinado black power… Eu vi aquele negão com aquele cabelo lindo com o saxofone na mão e falei: ‘mãos [bros], o que é esse som!? É isso que quero fazer da minha vida. A verdade é que comecei a estudar por hobby, para fugir da loucura do meu trabalho no setor público”.

Essa nova paixão, aliada ao desejo de deixar um emprego prejudicial à sua saúde mental, motivou Suka a se dedicar integralmente à música. O que era para ser apenas uma saída se tornou seu objetivo na vida. Para aprimorar o talento que não sabia que tinha, mergulhou nos estudos. Em 2018 conquistou o primeiro lugar na Escola Municipal de Música, em São Paulo, e dois anos depois fez sua estreia oficial com o single “Caminho de Mármore”.

Durante esse período de formação, ele teve que buscar formas alternativas de ganhar dinheiro, pois viver da música ainda era apenas um sonho. Deixou um emprego instável e passou a dedicar todo o seu tempo ao sax. Para manter o básico, ela trabalhou em diferentes biscates, de garçonete a recepcionista.

“Precisava mudar minha vida. É óbvio que falo de um lugar de grande privilégio. Mudar minha vida era perder um emprego garantido, mas estava me matando. Então me agarrei à música como se fosse a bóia em alto mar, como se fosse a coisa que me salvaria. Dediquei-me incansavelmente. Eu estudava de 5 a 6 horas por dia… e tinha muitos problemas com os vizinhos.”

Por sua dedicação, Suka Figueiredo foi e tem sido premiada. Sua curta carreira gerou grandes resultados e, de certa forma, serviu de incentivo para que outras mulheres negras ganhassem destaque no jazz brasileiro e na música instrumental. Não por acaso, no Dia Internacional da Mulher Negra na América Latina e Caribe (25 de julho de 2022), ela estreou o EP AFROLATINA.

O repertório de cinco faixas tem várias influências do jazz, principalmente da América Latina (Cuba e México), e traz alguns elementos do afrobeat, cumbia, R&B e MPB. Uma de suas inspirações para a construção do disco foi o trabalho de Moacir Santos, de quem é admiradora incondicional, tendo tocado sua música em shows que fez em várias cidades brasileiras com uma banda formada inteiramente por mulheres.

“Eu rapidamente entendi que os espaços para trompetistas são muito restritos”, diz ele. “As mulheres, na música em geral, trabalham mais na voz, ou no piano… Me incomodava muito sair de casa para ver uma orquestra e só havia homens, a maioria brancos. Às vezes tem uma mulher ou outra na flauta, ou no violino, mas aí eu me pergunto: onde estão os saxofonistas, os trompetistas? Isso me incomodou porque senti que se não criasse meu próprio espaço de trabalho, não conseguiria tocar o repertório que queria.”

É pensando no papel feminino dentro de um gênero ainda muito restrito às mulheres, a não ser que elas sejam coadjuvantes em uma banda, que Suka começou sua jornada. Muito mais do que ser reconhecida, seu objetivo é abrir portas – dentro de suas possibilidades – para que outras mulheres negras conquistem o espaço que tanto almejam. Sua trajetória serve de estímulo para meninas negras que não se veem representadas no ambiente musical classicista e acadêmico do jazz brasileiro.

“Minha intenção é desconstruir isso, porque o jazz é meu, o jazz é nosso. A pedra é minha, é sua. Não é o som desses caras.”

Ouvir AFROLATINA uma treatre.ffm.to/afrolatina

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