Sem recursos, OMS vê projeto para garantir distribuição de vacinas ameaçado

Documentos da OMS (Organização Mundial da Saúde) apresentados a governos de todo o mundo na semana passada revelam que a agência teme que seu projeto de criar um estoque global de vacinas covid-19 e garantir sua distribuição esteja fortemente ameaçado.

Em abril, a entidade assinou um acordo com a Europa para lançar uma iniciativa pela qual o mundo se uniria para produzir vacinas, tratamentos e diagnósticos para superar a pandemia. A ideia era evitar a todo custo a repetição do cenário de Aids, que por anos manteve os países mais pobres longe do tratamento.

Com o projeto, seria criada uma espécie de fundo global para, por um lado, armazenar a vacina que chega ao mercado e, por outro, garantir uma distribuição justa no mundo. O objetivo era evitar uma guerra comercial e o princípio de que apenas quem tem recursos tem acesso ao produto.

Após meses de análise, concluiu-se que o projeto demandaria US $ 31 bilhões. Desse total, US $ 18 bilhões iriam para acelerar o desenvolvimento de vacinas, comprá-las e garantir a distribuição para cerca de 90 dos países mais pobres do mundo.

No entanto, quase quatro meses depois, as duas rodadas de arrecadação de fundos para o projeto resultaram em uma quantidade insuficiente de recursos. Juntos, os dois eventos arrecadaram US $ 3,8 bilhões, principalmente com doações europeias.

A meta da OMS é garantir um fundo com 2 bilhões de doses até o final de 2021. Com esse montante, cada país receberia o equivalente a 20% de sua população, o suficiente para imunizar trabalhadores de saúde e idosos com mais 65 anos.

Mas os documentos revelam que, hoje, os convênios estipulam apenas 300 milhões de doses. O déficit, portanto, é de 1,7 bilhão de doses.

“Nacionalismo da saúde”

Se o fundo global secar, a OMS destaca que os países mais ricos do mundo já se apresentaram para fechar um acordo com empresas privadas e, assim, garantir o abastecimento de suas populações. Isso é o que se chama de “nacionalismo da saúde” dentro da agência.

Individualmente, os governos dos países ricos e alguns emergentes já assinaram acordos para estocar um bilhão de doses. Além disso, a União Europeia assinou contratos para 400 milhões de doses adicionais.

Na organização, a preocupação é que o mundo não consiga retomar o crescimento de sua economia até que a pandemia acabe, mesmo na periferia do sistema internacional.

Na segunda-feira, sem dar mais detalhes, Tedros Ghebreyesus, diretor-geral da OMS, pediu recursos, alertando que há um “gap substancial” nas contas. Segundo ele, o valor exigido pode parecer alto. Mas é apenas uma fração dos 10 trilhões de dólares que os governos tiveram de injetar em suas economias para evitar o colapso social.

Parceiro do Butantan mantém conversação com a OMS

Na busca por insumos, a OMS multiplica os contatos com produtores em todo o mundo. Uma delas é a Sinovac, empresa chinesa que fechou acordo com o Instituto Butantan para a produção de uma vacina contra o covid-19.

No final de junho, a empresa se reuniu com a cúpula da Organização Mundial da Saúde para apresentar detalhes sobre o desenvolvimento do medicamento e alinhar normas e trocar informações com a instituição internacional.

Na época, lançando o esforço internacional de um consórcio capaz de acelerar a produção de vacinas, o cientista-chefe da OMS, Soumya Swaminathan, confirmou que teve “discussões preliminares” com Sinovac sobre “colaborações futuras”. Ele também indicou que, naquele momento, a agência e as empresas estavam “trocando documentos, firmando acordos de confidencialidade” para que os dados pudessem ser compartilhados.

Um dos pontos destacados pela OMS na ocasião foi garantir que todas as empresas de testes conduzam pesquisas dentro de um padrão para que o eventual processo de pré-qualificação seja agilizado, uma vez conhecidos os resultados. Dias antes, a organização havia realizado uma longa reunião com fabricantes chineses e suas agências reguladoras.

A vacina produzida em SP aparece no mapeamento da agência

Um mapeamento feito pela OMS também inclui a vacina contra o covid-19, que está sendo produzida e investigada entre a empresa chinesa Sinovac e o Instituto Butantan.

O documento, de 31 de julho, menciona o esforço de São Paulo junto com outras iniciativas, como a da Universidade de Oxford e outras 24 vacinas candidatas que estão em estágio avançado de pesquisas. Além da Sinovac, outras quatro empresas e agências chinesas também estão na fase 3 de testes de suas vacinas.

A OMS deixa claro que a lista não significa endosso imediato dos produtos ou selo de qualidade, até porque os resultados da investigação ainda não são conhecidos.

Sinovac já havia recebido um sinal positivo da agência para a pré-qualificação de uma vacina contra hepatite A.

Dimas Tadeu Covas, diretor do Instituto Butantan, confirmou à coluna que tem conversado com Sinovac sobre uma futura inserção da vacina no mundo. Também está sendo procurado pela Organização Pan-Americana da Saúde e governos como Colômbia e Argentina, interessados ​​no processo.

A princípio, porém, a produção da vacina será destinada ao mercado interno, com capacidade de produção possível de 60 milhões a 80 milhões de doses.

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