Seqüenciamento em AM revela uma linha diferente de coronavírus encontrada em SP – 04/01/2020

Seqüenciamento em AM revela uma linha diferente de coronavírus encontrada em SP - 04/01/2020

A primeira sequência de coronavírus realizada na Amazônia revelou que já possui 11 mutações em relação ao que foi seqüenciado em São Paulo, em fevereiro. Isso aponta para a circulação de diferentes cepas do vírus no país.

A diferença encontrada entre os vírus em nosso país é maior que a do vírus original em Wuhan, China, onde foram registrados os primeiros casos de covid-19. No total, nove mutações diferentes foram encontradas no coronavírus da Amazônia em comparação aos chineses.

A pesquisa foi realizada na Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz) Amazônia, em Manaus, e foi coordenada por Felipe Naveca, cientista em virologia e biologia molecular. A amostra do vírus foi coletada em 16 de março com material coletado de um paciente infectado na Espanha.

“Ainda não temos como saber se essas mutações na China aqui já são algo que terá impacto do ponto de vista clínico”, diz ele.

A sequência deixa claro que o vírus está evoluindo, o que não significa necessariamente que esteja causando problemas mais graves em humanos. “A priori, não há nada que possamos dizer que a mutação aqui esteja relacionada ao aumento da virulência desse vírus”, diz Naveca. “Mas isso sugere que ainda deve evoluir muito”, diz o cientista.

Leia a entrevista completa:

Inclinação Com base no que você analisou, esse vírus sofreu mutações até chegar à Amazônia?

Felipe Naveca – Fizemos o genoma completo dessa amostra que chegou aqui no Amazonas em 15 de março. No dia 16, coletamos uma amostra e, alguns dias depois, tínhamos o genoma. Este paciente veio da Espanha e teve nove mutações em relação ao genoma original da amostra de Wuhan, China.

Inclinação O que essas nove mudanças significam? Eles mudaram para serem “mais fortes”?

Felipe Naveca Os vírus, como outros organismos, sempre passam por um processo evolutivo. O que acontece nos vírus de RNA, assim como no coronavírus e na dengue, é que essa evolução ocorre mais rapidamente devido às características biológicas da produção de RNA. Esta enzima não tem correção. Portanto, como não é fixo, toda vez que um RNA é produzido, é possível adicionar um erro, quais seriam as mutações e esses erros são perpetuados da seguinte maneira: se for um problema para o vírus, ele desaparecerá porque isso não ocorre. vai funcionar. Se essa mutação for benéfica ou neutra, pode ser perpetuada.

Ainda não temos como saber exatamente se essas mutações na China aqui já são algo que terá impacto do ponto de vista clínico. O que precisa ser feito agora é montar o maior banco de dados possível, e é isso que está sendo feito em todo o mundo, para que possamos avaliar e ter suporte estatístico. Ou seja, se encontrarmos uma mutação com mais frequência em casos mais graves, poderemos, no futuro, associá-la a um resultado pior.

Obras do hospital de campanha que está sendo implantado no Anhembi para combater o coronavírus, em São Paulo (SP)

Imagem: ETTORE CHIEREGUINI / FUTURA PRESS / FUTURA PRESS / ESTÁDIO

Inclinação Você viu alguma mudança no que foi encontrado em São Paulo?

Felipe Naveca Em relação à amostra sequenciada pela equipe de Albert Einstein, liberada em 2 de março, de um paciente coletado em 28 de fevereiro, possui 11 mutações.

Essa análise de seqüenciamento é importante não apenas para que saibamos exatamente o caminho que o vírus tomou; Ele também serve para configurar esse banco de dados para que, no futuro, no dia em que tenhamos um medicamento ou no dia em que tenhamos uma vacina, saibamos se existe o que chamamos de fuga, que é um vírus resistente ao tratamento ou que a vacina escapa.

Só saberemos disso quando reunirmos os dados que estão sendo feitos em todo o mundo. É um trabalho que nunca foi feito nessa velocidade. Conhecemos esse vírus há três meses e já temos mais de 1.000 genomas disponíveis em todo o mundo. E podemos ter um banco de dados muito sólido para que, quando tivermos um medicamento ou uma vacina, saibamos como identificar aqueles que podem eventualmente escapar.

Inclinação Você pode dizer que essa diferença de 11 em relação a São Paulo é normal ou surpreendente?

Felipe Naveca Esperado para esse tipo de vírus, mas sugere que ele ainda precisa evoluir muito.

Inclinação Mas é possível saber se teremos alguma diferença com o vírus que faz a transmissão da comunidade na Amazônia, por exemplo, levar em consideração o calor, a umidade e a presença de florestas?

Felipe Naveca O vírus evoluirá de acordo com a população para onde será transmitido. Então, imaginamos que haverá diferenças. Chamamos essa linhagem, que será mais comum nessas amostras que circulam aqui na Amazônia. De fato, é mais provável que as pessoas tenham mais de uma introdução do vírus no mesmo estado. Provavelmente um deles terá mais sucesso em se estabelecer na população.

Aqui haverá uma variação que não é exatamente a mesma variação em São Paulo; portanto, em um país grande com uma população mista como a nossa, é importante que você tenha essa sequência de amostragem não apenas de um local. Então, também estamos fazendo aqui no norte.

Em relação à questão climática, sabemos que nas áreas ou momentos mais frios há uma tendência a ter um número maior de casos de vírus respiratórios, sejam coronavírus ou outros que já conhecíamos. Agora temos a estação das chuvas, no chamado inverno amazônico, onde também ocorre a circulação desses vírus. O clima por si só não será suficiente para conter essa circulação.

Inclinação O que chamou sua atenção, como virologista, do vírus seqüenciado na Amazônia?

Felipe Naveca Como se trata de um vírus muito jovem, ainda não temos muito com o que comparar para dizer que é diferente ou que chama a atenção em comparação com outro vírus. O que estamos comparando são as seqüências desse vírus a partir do próprio coronavírus desde o final de 2019. A priori, não há nada que possamos dizer que a mutação aqui esteja relacionada a um aumento na virulência desse vírus.

Inclinação Mas o que 11 diferenças significam no mesmo país? Temos, por exemplo, mais de um tipo de vírus no país?

Felipe Naveca Você não pode falar de dois tipos, como dizemos, por exemplo, o [vírus da Aids] HIV 1, HIV 2. Mas podemos dizer, sim, que existem diferenças de linhagem nas amostras que entraram no Brasil em diferentes regiões. Certamente teremos amostras que entraram nos Estados Unidos, que passaram por um processo evolutivo, que entraram diretamente da China. Em outras palavras, temos a mesma situação que as pessoas que vieram da Itália, da Espanha, de outros lugares.

Provavelmente descobriremos em algumas semanas, quando esse número de dados seqüenciados aumentar, tivemos várias introduções do mesmo vírus, mas com pequenas variações entre eles, o que podemos chamar de linhagens.

Inclinação O Brasil recebeu esse vírus depois de passar por muitos países. Ter mais cepas é bom ou ruim?

Felipe Naveca O fato de sermos derrotados mais tarde apenas dá a expectativa de uma melhor compreensão da gravidade dessa doença. Isso nos deu mais tempo de preparação. Eu acho que nesse ponto, sim, está tudo bem. E também temos a diferença de que ele veio mais à Europa no inverno, e ainda não estamos nessa fase.

Esperamos ultrapassar o pico antes de atingir, por exemplo, a altura do inverno. Vamos ver como isso vai. Em relação às linhagens, pode ser que uma delas seja mais bem-sucedida no país. Mas ainda não temos informações suficientes para dizer isso.

Inclinação Então, seria correto dizer que, como há mais tensões vindas de vários lugares, teremos mais “riscos” de ele se estabelecer aqui por meio da seleção natural?

Felipe Naveca Podemos dizer que recebemos diferentes cepas do vírus, assim como os EUA. EUA, que também é quase ao mesmo tempo [do grau de epidemia] e aumentando o número de casos, que já evoluíram nesses três meses. Este vírus é certamente diferente do primeiro [encontrado pela ciência] porque ainda não havia um em seres humanos. Mas sim, estamos recebendo várias linhagens que já passaram por esse processo de coevolução.

Mas a evolução em um sistema host, neste caso, humanos, nem sempre o tornará mais agressivo. Por exemplo, se você observar os hantavírus que evoluíram em roedores como exemplo, nessas espécies, não causará problemas. Um vírus que está evoluindo em humanos nem sempre será mais agressivo a ele.

Inclinação Pelo que você está vendo, esse vírus está se adaptando bem em todos os climas do Brasil, certo?

Felipe Naveca Sim, não parece que o clima seja uma barreira muito importante, caso contrário não teríamos tantos casos.

Inclinação No norte, uma região quente e úmida, é adequado para vírus respiratórios normalmente?

Felipe Naveca – Tivemos muitos casos nos últimos anos, incluindo casos graves de vírus respiratório sincicial e influenza, influenza H1N1 e influenza B.

Homem usa máscara protetora em hospital de Brasília (DF) durante pandemia de coronavírus - Adriano Machado

Homem usa máscara protetora em hospital de Brasília (DF) durante pandemia de coronavírus

Imagem: Adriano Machado

Inclinação Existe o risco de vírus proliferarem juntos?

Felipe Naveca Sim, isso certamente está acontecendo. Algumas pessoas podem ser infectadas com mais de um vírus ao mesmo tempo.

Inclinação O que acontece nesses casos?

Felipe Naveca Temos a tendência de imaginar que seria uma imagem pior, mas o fato é que temos que investigar em mais casos se essa coinfecção existe. Com poucos casos descritos, não é possível generalizar se é sempre mais grave.

Inclinação Qual é a necessidade de continuar com a investigação do coronavírus em todo o país?

Felipe Naveca Tais estudos devem ser realizados em diferentes regiões, pois certamente temos diferentes introduções do vírus, que possivelmente evoluirão de maneira diferente, nas diferentes populações afetadas. Além disso, é importante notar que esses estudos no Brasil só foram possíveis em tão pouco tempo porque a comunidade científica estava preparada para responder. E na ciência isso significa infraestrutura, treinamento e insumos, ou seja, investimento em pesquisa. Aqui, por exemplo, já havíamos estabelecido uma rede de pesquisa em saúde genômica para responder a emergências como essa.

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About the Author: Adriana Costa Esteves

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